domingo, 28 de outubro de 2012

confissão

Toda a gente sabe como é: chamei nomes à minha irmã, dei um estalo ao meu irmão, roubei uma pêra do pomar do Monsenhor, três ave-marias, duas glórias, vai em paz e que Deus te acompanhe. E eu ia, prometendo não voltar a pecar, pelo menos até ao Domingo seguinte para poder comer o Jesus.

As confissões eram feitas numa sala contínua à sacristia onde havia duas filas de bancos e em frente a cada uma um confessionário. Comandadas pela catequista entrámos e sentámo-nos na fila onde já estavam algumas pessoas. Alguns minutos depois entraram dois padres. O Padre Eduardo ocupou o confessionário da fila onde não estava ninguém deixando ao Padre António o confessionário da fila onde estava toda a gente. Então uma coisa extraordinária aconteceu: como robots obedecendo ao pressionar de um botão, toda a gente se levantou em simultâneo transferindo-se para a fila do Padre Eduardo. Todos menos eu.

O padre António andava sempre com calhamaços debaixo do braço. Passeava e falava sozinho fazendo oscilar o guarda-chuva de trás para a frente e da frente para trás, marcando com ele o passo, levantando-o de longe a longe para apontar a extremidade metálica para o céu, feita pára-raios da fúria divina que segundo a dona Amélia também se manifestava por faíscas e trovões. Ninguém gostava do padre António. Ele acreditava no que fazia, no amai-vos uns aos outros e na partilha da riqueza, mas acreditava um bocadinho demais. Era um caso perdido. Era um caso de loucura.

Aos Domingos, quando a igreja se enchia até às axilas, saía apressadamente da sacristia e despachava a missa até à homilia a que dava início abrindo e fechando os cotovelos. Imaginava-o a tentar elevar-se ao céu e a ficar pendurado no candelabro pela atrapalhação da batina e dos paramentos. O tom de voz ia subindo com ele até ao ponto em que enrubescia e esticava o dedo para os fiéis gritando coisas como:

- Hipócrita!

Os hipócritas entreolhavam-se tentando perceber para quem é que ele estava a apontar. Uma eternidade de silêncio depois, saía do seu momento de elevação quando as pessoas começavam a tossir e a inquietude das roupas de Domingo ia subindo às alturas. Oremos. E orava-se sem convicção a ladainha aprendida na catequese.

No fim da missa os fiéis reuniam-se em pequenos grupos no adro da igreja, comentando o sermão do padre e tentando decidir se deveriam, mais uma vez, levar o caso ao Monsenhor. As crianças, alheias a tudo isso, corriam umas para as outras de línguas esticadas para fora exibindo o troféu. Corpo de Cristo a derreter devagarinho no tapete vermelho que se desenrolara para ele. Afastava-o dos dentes de leite colando-o no céu-da-boca. Quem o trincasse ia para o Inferno.

Todos menos eu. Fiquei colada ao banco, paralisada pela expressão tão clara e crua de desprezo e rejeição que pela primeira vez testemunhava, imaginando os olhos perscrutadores do Padre António ocultos pelo rendilhado do confessionário colados em mim, aguardando a sua única freguesa. Levantei-me sem tirar os olhos do chão, as pernas tremiam um bocadinho sob o peso dos olhos das outras crianças. Com o coração aos pulos caminhei pelo espaço entre os bancos e sentei-me na fila do Padre Eduardo.

Não tinham percebido nada: o padre António apontava para mim.

domingo, 14 de outubro de 2012

um segredo sobre um segredo

Houve um tempo em que construíamos as nossas autobiografias escrevendo diários pelos quais zelávamos para que se mantivessem secretos, para os nossos olhos somente. Hoje fazemo-lo através de fotografias que corremos a partilhar nas redes sociais. O excesso, porém, não é sinónimo de multiplicação da capacidade de possuir quem contempla, de lhe contar uma história ou um segredo. Talvez seja por isso que gosto tanto das fotografias anónimas do passado.  Mais do que a fotografia artística procuro a dos quotidianos, de gente que numa pausa, por vezes rara, se deixou ou se quis fotografar e que sobreviveu enterrada em arquivos pessoais ou estúdios fotográficos, como aqueles onde vamos tirar o retrato para o BI ou a foto mais ou menos pirosa de corpo inteiro. Terão passado despercebidas aos olhos dos contemporâneos mas não aos nossos, talvez porque temos entre nós e eles a distância temporal, ou cultural, e o benefício de conhecermos o resto da história.

Nas fotografias de estúdio intrigam-me os objectos escolhidos para acompanhar os retratados, assim como as poses; o que é comum a quase todas as culturas e o que é completamente diferente, aparecendo por vezes como paradoxal.

Os taliban, nas fotografias tiradas em segredo nas traseiras dos estúdios, parecem partilhar o gosto pelas armas de fogo com o gosto pelas flores. Estas não se limitam a servir de decoração, são também exibidas muito perto dos rostos, criando um contraste absurdo, quase a servir de metáfora para a destruição do belo em que tanto se empenharam.



Há fotografias que foram retocadas, a pele clareada, os olhos pintados, algumas poses com rasgos de sensualidade, outras reminiscentes de um deus hindu. Pergunto-me se toda essa estética clandestina não seria uma forma de preencher o vazio deixado pelo desaparecimento do rosto feminino. Todas as fotografias são de homens.


Outro aspecto intrigante são os afectos. No estúdio Shehrazade (Saida, Líbano), os casais assumiam poses românticas típicas dos namorados, abraços e beijos, mas eram sempre do mesmo sexo, excepto quando a mulher era de cartão. Menos intrigante é se não o desejo de pertencer a outra cultura, a vontade de fingi-lo e perpetuá-lo numa fotografia. O estúdio possuía uma miríade de objectos com os quais os retratados podiam dar expressão aos seus sonhos e fantasias.


A fotografia mais célebre da colecção é a da mulher de Baqari (desconhece-se o nome dela) que foi ao estúdio Shehrazade onde Hashem El Madani a fotografou com roupas leves e o cabelo descoberto. Quando soube, o marido ciumento, que nunca a deixava sair de casa, exigiu a destruição dos negativos, mas Madani apenas concordou em riscá-los com um alfinete. Mais tarde, após o suicídio dela, ele voltaria à procura dos retratos com a esperança de que houvesse outros que desconhecia. Queria ampliações. Queria olhar para ela.



Ao olhar para ela, lembrei-me do que dizem tantas mulheres que vivem sob a tirania de sociedades ou de maridos obcecados em cobri-las: a remoção do véu em público é um desnudamento. Transparece a timidez, o desconforto e insegurança de quem quer e no entanto receia ser olhada. O corpo parece estar em conflito com o interior, sem saber bem o que fazer consigo próprio - um conflito entre o que a mulher deseja para si e aquilo a que o corpo foi obrigado a submeter-se até lhe parecer natural. A fotografia é também a materialização de uma vontade, sempre mais poderosa do que o medo.

Os clientes de Madani gostavam de ser fotografados junto de rádios. Esta menina adicionou as suas bonecas ao cenário, o que me recordou a infância e o rádio onde a minha mãe ouvia o fado e as notícias. Com a curiosidade normal das crianças queria saber como funcionava e acabei por me convencer de que havia gente muito pequenina dentro dele que vinha nas ondas. Uma Amália em miniatura.







O gosto pela tecnologia é universal. Por vezes é a presença dela que nos situa no tempo. Nestas fotografias chinesas, o ar medieval é quebrado pela presença da electricidade e do automóvel. O homem pode fazer um esforço colossal para manter as tradições e os modos ancestrais de vida, mas parece apenas adiar a derrota.




Em muitas fotografias chinesas, devido à formalidade e inexpressividade dos rostos, a história é a ausência de histórias. Não nos é permitido acesso à pessoa retratada. Inúmeros arquivos do século XX foram destruídos devido à guerra e à revolução. Hoje existe na China uma febre por estes documentos que precederam uma época em que possuir fotografias pessoais ou de antepassados burgueses era um risco. A maioria das que existem foram salvas por britânicos que as levaram para fora do país, tendo permanecido um segredo que os chineses agora descobrem.



Num hipotético futuro em que fotografias nossas, tendo invadido já todos os recantos da existência, apareçam também como restos de um passado anónimo, terão algum segredo para contar? Diane Arbus dizia que a fotografia é um segredo sobre um segredo. Quanto mais nos diz menos sabemos.