quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

na Coreia do Norte a Natureza é cúmplice do regime


When beggars die, there are no comets seen; 
The heavens themselves blaze forth the death of princes.

Shakespeare, Julius Caesar (II, ii, 30-31)

Não consta nas memórias de Hyok Kang*, que o gelo do lago Chon no sagrado Monte Paektu se tenha rompido com estrondo por aqueles que sucumbiram à fome durante a liderança de Kim Jon-Il, ou que um grou tenha voado três vezes em torno dos cadáveres que Kang viu indiferentes na neve em sinal de luto. Os simbolismos dos fenómenos da natureza estão reservados para a morte dos príncipes, não para aqueles que se situam à margem de todas as decisões, nascidos para serem simultaneamente vítimas e colaboradores involuntários da mecânica que mantém o regime.

A vida continua inalterável na Coreia do Norte e os líderes vão-se sucedendo sobre a ameaça constante da fome e a ausência de dissidência. Provavelmente as crianças subalimentadas de hoje também encaram tudo com a mesma normalidade com que Hyok Kang viveu esses anos no Paraíso. Descreve os factos como se fossem normais, com uma quase ausência de emoção que apenas se torna perceptível quando fala do pai. Uma ausência que contrasta fortemente com o que vemos nas imagens do funeral de Kim Jon-Il, como se toda a emoção tivesse sido sugada das entranhas do povo e armazenada para explodir em orquestrações grotescas nos dias em que morrem os deuses e outros lhes sucedem.

*This is Paradise, My North Korean Childhood, com a colaboração do jornalista francês Philippe Grangereau

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