sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

As grandes lojas do amor

Enquanto uma passava o espanador nas teias de aranha e a outra puxava o lustro aos móveis, pusemos a conversa em dia. Deu notícias do marido, a recuperar de uma anemia, dos filhos emigrados que vieram para a consoada, da filha mais velha que mora já ali e da mais nova, licenciada em Matemática, que ainda não conseguiu sair da precariedade. 

Tem trabalhado intermitentemente nas grandes lojas do amor. A última foi a Worten. Cumpriu o máximo de contratos temporários previstos na lei e, chegando a hora que marca a fronteira entre a precariedade e a estabilidade, dispensaram-na como fazem com toda a gente, batalhões sucessivos de desesperados de vidas adiadas, nunca esquecendo de sublinhar o seu amor por eles. Chamaram-na de novo para trabalhar uns dias em Dezembro porque gostam muito dela. Gostam muito dela e gostariam muito que ficasse para sempre, diz o gerente que elogia a sua competência, esforço, pontualidade, inteligência e tem muita pena de não ser ele quem faz as regras. 

Nas raras vezes em que os nossos horários coincidem a mãe vai-me pondo a par da saga da filha pelas lojas do amor, repetindo sempre a mesma frase: “mas gostam muito dela”, como se quisesse iludir-se com uma esperança que talvez saiba ser vã, de que desse amor saia um dia um emprego estável e que a filha possa finalmente sair daquilo a que chamam zona de conforto. 

Há uma lógica nesse amor que escapa à mãe. “Mas gostam muito dela/dele” é uma frase comum na vida das gerações tornadas hiper flexíveis. Não será surpreendente, por certo, que na era em que empobrecer se tornou sinónimo de enriquecer, precariedade em sinónimo de conforto e tantos outros antónimos em sinónimos de si próprios, o amor se tenha tornado sinónimo de rejeição. 


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