Dantes a igualdade era dar às pessoas as mesmas oportunidades para que pudessem melhorar as suas vidas. Hoje tornou-se numa competição entre ricos sobre quem mais consegue vitimizar-se para disputarem aos pobres a condição de vítimas.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
isto deve querer dizer alguma coisa
Parece que comprámos um bilhete para o passado: empobrecimento, emigração (para Angola, em força!), um presidente pobrezinho e censura. Faltavam as aparições. Ontem testemunhei este fenómeno no Toural, em Guimarães (foto não manipulada) sobre a torre da igreja. Não sei, mas acho que isto deve querer dizer alguma coisa…
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
na Coreia do Norte a Natureza é cúmplice do regime
When beggars die, there are no comets seen;
The heavens themselves blaze forth the death of princes.
Shakespeare, Julius Caesar (II, ii, 30-31)
Não consta nas memórias de Hyok Kang*, que o gelo do lago Chon no sagrado Monte Paektu se tenha rompido com estrondo por aqueles que sucumbiram à fome durante a liderança de Kim Jon-Il, ou que um grou tenha voado três vezes em torno dos cadáveres que Kang viu indiferentes na neve em sinal de luto. Os simbolismos dos fenómenos da natureza estão reservados para a morte dos príncipes, não para aqueles que se situam à margem de todas as decisões, nascidos para serem simultaneamente vítimas e colaboradores involuntários da mecânica que mantém o regime.
A vida continua inalterável na Coreia do Norte e os líderes vão-se sucedendo sobre a ameaça constante da fome e a ausência de dissidência. Provavelmente as crianças subalimentadas de hoje também encaram tudo com a mesma normalidade com que Hyok Kang viveu esses anos no Paraíso. Descreve os factos como se fossem normais, com uma quase ausência de emoção que apenas se torna perceptível quando fala do pai. Uma ausência que contrasta fortemente com o que vemos nas imagens do funeral de Kim Jon-Il, como se toda a emoção tivesse sido sugada das entranhas do povo e armazenada para explodir em orquestrações grotescas nos dias em que morrem os deuses e outros lhes sucedem.
*This is Paradise, My North Korean Childhood, com a colaboração do jornalista francês Philippe Grangereau
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
mercado
De manhã cedo a cidade dirigia-se para lá. Donas de casa apressadas contavam tostões no porta-moedas, assediadas por cabeças de homens adultos em corpos de bebé, cotos nas extremidades de braços e de pernas, olhos de onde tinham desaparecido as pupilas, tumescências surgindo de crânios rapados, bebés raquíticos fundidos no colo de mulheres gordas e tudo o mais que rendesse esmola. Os comerciantes escancaravam portas e mercadoria, deixando voar as fazendas porta fora e tilintar as panelas e as colheres de pau. Meios torsos de porcos e bovinos dançavam nos ganchos, abrindo caminho aos aromas das flores e dos frutos que anunciavam a proximidade do centro do mercado. Aí, segundo a minha mãe, as lavradeiras carregadas de legumes e arrecadas de ouro, roubavam no peso das batatas. Junto aos portões de ferro afunilava-se o formigueiro sob a nuvem que os tubos de escape dos autocarros deixavam na rua junto com os passageiros. Suspendia a respiração até se desvanecer a nuvem enegrecida que ao diluir-se no ar da manhã, voltava a imprimir nos passeios os mendigos estropiados, como sebastiões revelados em manhãs de nevoeiro.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
classe fumadora
Apesar de todas as boas intenções em deixar de pertencer à classe fumadora, parece que não é desta. Acontece-me sempre isso quando o governo decide embarcar em mais um campanha proibicionista.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
As grandes lojas do amor
Enquanto uma passava o espanador nas teias de aranha e a outra puxava o lustro aos móveis, pusemos a conversa em dia. Deu notícias do marido, a recuperar de uma anemia, dos filhos emigrados que vieram para a consoada, da filha mais velha que mora já ali e da mais nova, licenciada em Matemática, que ainda não conseguiu sair da precariedade.
Tem trabalhado intermitentemente nas grandes lojas do amor. A última foi a Worten. Cumpriu o máximo de contratos temporários previstos na lei e, chegando a hora que marca a fronteira entre a precariedade e a estabilidade, dispensaram-na como fazem com toda a gente, batalhões sucessivos de desesperados de vidas adiadas, nunca esquecendo de sublinhar o seu amor por eles. Chamaram-na de novo para trabalhar uns dias em Dezembro porque gostam muito dela. Gostam muito dela e gostariam muito que ficasse para sempre, diz o gerente que elogia a sua competência, esforço, pontualidade, inteligência e tem muita pena de não ser ele quem faz as regras.
Nas raras vezes em que os nossos horários coincidem a mãe vai-me pondo a par da saga da filha pelas lojas do amor, repetindo sempre a mesma frase: “mas gostam muito dela”, como se quisesse iludir-se com uma esperança que talvez saiba ser vã, de que desse amor saia um dia um emprego estável e que a filha possa finalmente sair daquilo a que chamam zona de conforto.
Há uma lógica nesse amor que escapa à mãe. “Mas gostam muito dela/dele” é uma frase comum na vida das gerações tornadas hiper flexíveis. Não será surpreendente, por certo, que na era em que empobrecer se tornou sinónimo de enriquecer, precariedade em sinónimo de conforto e tantos outros antónimos em sinónimos de si próprios, o amor se tenha tornado sinónimo de rejeição.
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