quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

fado (2)

Havia dias em que chegava a casa esbaforida depois da corrida pela rua mais antiga do burgo, entre a escola primária e a minha casa. Entrava e ouvia cantar o fado. Parava à escuta. Não era o disco da Amália. Era a minha mãe. Sentava-me nos degraus de pedra com a pasta pousada nos joelhos e o pescoço dobrado para trás fitando a clarabóia lá em cima, no topo da espiral de escadas. A voz da minha mãe vinha do céu. Os fados eram todos tristes, todos da Amália, todos sofridos.

Mas ela cantava-os melhor. Cantava-os enquanto picava cebolas para o estrugido, cortava cenouras aos bocadinhos, dividia batatas em palitos, descascava feijões e grãos-de-bico, enquanto partia unhas e decepava dedos.

Havia uma tristeza sem fim dentro da minha mãe, uma tristeza que eu não entendia. Calava-se quando ouvia os meus passos nas escadas. Eu sabia que engolia as lágrimas para ninguém a ver chorar, mas a humidade ficava agarrada às pestanas, o inchaço vermelho às pálpebras; e ela dizia que era das cebolas e eu dizia que era do fado. O fado era o exorcismo dessa tristeza, compreendi depois, e não a razão da mesma.
O fado é o esconjuro das almas nascidas no fado errado.

(9 Junho 2009)

2 comentários:

CNS disse...

Isto é fado.

Helena disse...

Isto é um texto muito bom!
(mas escuso de pôr esta cara de surpresa, que o menos surpreendente é encontrar neste blogue textos excepcionalmente bons)