domingo, 27 de novembro de 2011

a lusitana ordem natural das coisas

Medita na textura física do empobrecimento. Empobrecer significa voltar ao passado, à lusitana ordem natural das coisas, ao desconforto dos invernos húmidos intermináveis numa casa de papelão que não lhe pertence, onde o bolor desenha caricaturas nos muros e nos tectos; tachos e alguidares recolhendo a chuva que o telhado deixa verter, um sabão escuro para lavar o cabelo e o corpo e a louça e as meias sintéticas de odores ofensivos e a roupa interior esburacada; recorrer a instituições de caridade para alimentar os filhos; pô-los a trabalhar escondidos em casa, como dantes se fazia no Vale do Ave; reconciliar-se com o ex-marido que não suporta, mas que ajudará na despesa se ela se submeter.

Se houve coisa que aprendeu numa vida de altos e baixos é que só os que ultrapassam a sua condição são permanentemente chamados a provar que o merecem, que não roubaram nada a ninguém, que não enganaram o sistema. Provam-no consentindo no empobrecimento pois não são esses os primeiros a serem chamados para a viagem de regresso ao passado onde, dizem, haverão de enriquecer?

Não consegue afastar o pressentimento de que lhe estão a cobrar alguma coisa que já pagou com muito trabalho e dificuldades, a roubar alguma coisa a que tem direito, mas cala na alma a revolta que mal se forma lhe parece intolerável. Porque haveria alguém de a achar tolerável se está em completo desacordo com a lusitana ordem natural das coisas?

4 comentários:

zepedrolemos disse...

isto é um fado? ou um ramo de sensações banais para quem conhece o meio pelo canudo da objectiva? lusitanos? que é isso? um saudosismo com cheiro a outros tempos? empobrecimento... qual? de espirito?
Visto doutra forma: andámos durante uns tempos a derreter rebuçados doces que a "europa" nos ofereceu, agora derreteram-se e queremos mais, achamos que que nos devem mais.
Talvez pensar que durante uns anos conseguimos andar com a boca doce, já não é mau. Talvez nem todos se dêem conta, de que os rebuçados que tinhamos na boca, para termos outros semelhantes, temos agora de os fazer... e se quem fez os outros se vê, agora, torcido para fazer uns quantos mais.
Imaginem a cara que pode fazer quem tem dificuldade em fazê-os e ainda os tem se distribuir por quem pouco ou nenhuns fez...
constatar a miseria e a luxuria, é útil, mas fácil. Perceber porque assim é, talvez não seja tão facil...
Pedir a um continental que pague do seu bolso para a causa do jardim da madeira, é uma injustiça... agora imaginem pedir a um holandês, dinamarquês ou a um alemão que deixem de comprar um rebuçado que o filho pede, porque o jardim da madeira precisa, ou porque o galo de barcelos está com desejos...

maria n. disse...

Realmente, perceber não é fácil excepto para o zepedrolemos que já entendeu tudo. Pena é que não tenha entendido nada.

cs disse...

Não resisto. Desculpe, maria n.
Este zé é um poucochinho, poucochinho que até enerva.

Parece um daqueles chefes de repartição que se tornam os rostos eternos nos seus bolorentos postos, com facilidades de adaptação aos diversos discursos, que lhes dão as chaves da entrada para abrir e fechar a porta e que se acham donos dos móveis.

Estas autoridades morais de café de bairro (adoro cafés de bairro) desesperam. E pensar que estes Zés são muitos e votam faz-me perder a paciência e a esperança.

Mais uma vez desculpe o abuso :)

maria n. disse...

Não é abuso nenhum CS, antes pelo contrário, é com muito gosto que leio os seus comentários.

É um tipo de discurso comum. Ninguém perde muito tempo a explicar os porquês de os "rebuçados" cá terem chegado e, sobretudo, o quanto as economias do norte ganharam com eles. Depois criam-se estes mitos de que nos foram dados a troco de nada pelo desgraçado do alemão que se fartou de trabalhar para nós. Enfim :-)