sábado, 19 de novembro de 2011

Em breve esta casa regressará à solidão. Os aracnídeos e as centopeias poderão refazer-se da matança. Arrumam-se loiças, lençóis, toalhas. Fecham-se cantos à casa, enchem-se gavetões e abandonam-se os lugares sombrios do jardim. Empilham-se livros abandonados a meio, outros lidos de fio a pavio e relidos, sublinhados em excesso. Fotografias. A casa volta-se para Sul.

O coro do Exército Vermelho entoa pelo granito, agora que o filho mais velho desenvolveu uma curiosidade por tudo o que é de outro tempo. Trabalho no jardim, enchendo e despejando carrinhos-de-mão de folhas de todas as cores. Encho e despejo. Encho e despejo. Ai-da da ai-da, burlak. Tenho a certeza de que não são todas minhas; o vento traz para cá todas as folhas das redondezas.

A Isabel deixou-me cebolas e batatas no alpendre. Uma abundância a que nunca damos vazão. O senhor Luís aproveitou as férias de imigrante para refazer a fachada da sua casa. Aumentou-a para os lados, colocou isolamento nas paredes e pintou-a de branco. Fitas de granito a emoldurar as janelas. Um portão demasiado imponente para os muros que o flanqueiam. A casa que começou por ser um buraco húmido e escuro está quase a chegar a solar. A Isabel, que vive no rés-do-chão, está contente com as melhorias, mas, embora não o confesse, ansiosa que se vão todos embora.

Em breve. A agitação que atravessa a aldeia é estridente. e rápida. Regressará o silêncio.

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