domingo, 27 de novembro de 2011

fado

Fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola.

- Excerto do melhor texto que li recentemente sobre o fado, do Rui Bebiano n'A Terceira Noite.

a lusitana ordem natural das coisas

Medita na textura física do empobrecimento. Empobrecer significa voltar ao passado, à lusitana ordem natural das coisas, ao desconforto dos invernos húmidos intermináveis numa casa de papelão que não lhe pertence, onde o bolor desenha caricaturas nos muros e nos tectos; tachos e alguidares recolhendo a chuva que o telhado deixa verter, um sabão escuro para lavar o cabelo e o corpo e a louça e as meias sintéticas de odores ofensivos e a roupa interior esburacada; recorrer a instituições de caridade para alimentar os filhos; pô-los a trabalhar escondidos em casa, como dantes se fazia no Vale do Ave; reconciliar-se com o ex-marido que não suporta, mas que ajudará na despesa se ela se submeter.

Se houve coisa que aprendeu numa vida de altos e baixos é que só os que ultrapassam a sua condição são permanentemente chamados a provar que o merecem, que não roubaram nada a ninguém, que não enganaram o sistema. Provam-no consentindo no empobrecimento pois não são esses os primeiros a serem chamados para a viagem de regresso ao passado onde, dizem, haverão de enriquecer?

Não consegue afastar o pressentimento de que lhe estão a cobrar alguma coisa que já pagou com muito trabalho e dificuldades, a roubar alguma coisa a que tem direito, mas cala na alma a revolta que mal se forma lhe parece intolerável. Porque haveria alguém de a achar tolerável se está em completo desacordo com a lusitana ordem natural das coisas?

sábado, 26 de novembro de 2011

língua

A noite passada sonhei que me caiu a língua. Assim, literalmente. E eu, com muito cuidado para não a mastigar e engolir, tentava desesperadamente mantê-la na boca e colocá-la no sítio. Um desespero, uma angústia, tão reais como o são sempre nos sonhos, e um alívio transpirado quando acordei e percebi que há muitas coisas que com a idade nos vão caindo, mas a língua não é uma delas.

domingo, 20 de novembro de 2011


"But real flowers can never be dispensed with. If they could, human life would be a different affair altogether" - Virginia Woolf, Jacob's Room, 1922

sábado, 19 de novembro de 2011

Em breve esta casa regressará à solidão. Os aracnídeos e as centopeias poderão refazer-se da matança. Arrumam-se loiças, lençóis, toalhas. Fecham-se cantos à casa, enchem-se gavetões e abandonam-se os lugares sombrios do jardim. Empilham-se livros abandonados a meio, outros lidos de fio a pavio e relidos, sublinhados em excesso. Fotografias. A casa volta-se para Sul.

O coro do Exército Vermelho entoa pelo granito, agora que o filho mais velho desenvolveu uma curiosidade por tudo o que é de outro tempo. Trabalho no jardim, enchendo e despejando carrinhos-de-mão de folhas de todas as cores. Encho e despejo. Encho e despejo. Ai-da da ai-da, burlak. Tenho a certeza de que não são todas minhas; o vento traz para cá todas as folhas das redondezas.

A Isabel deixou-me cebolas e batatas no alpendre. Uma abundância a que nunca damos vazão. O senhor Luís aproveitou as férias de imigrante para refazer a fachada da sua casa. Aumentou-a para os lados, colocou isolamento nas paredes e pintou-a de branco. Fitas de granito a emoldurar as janelas. Um portão demasiado imponente para os muros que o flanqueiam. A casa que começou por ser um buraco húmido e escuro está quase a chegar a solar. A Isabel, que vive no rés-do-chão, está contente com as melhorias, mas, embora não o confesse, ansiosa que se vão todos embora.

Em breve. A agitação que atravessa a aldeia é estridente. e rápida. Regressará o silêncio.