quarta-feira, 25 de maio de 2011

necrópole

Houve um tempo em que ela ia descalça pela secura da erva e ele se deitava mastigando palhas e contando rostos de velhos no céu. Sorria, imaginando a doçura esquecida pela avó nos bolsos do avental. A avó que era tão pequena, proibida de crescer para não ser maior do que os homens, não sabia bem quais as crianças que eram do seu sangue. Deste corpo saiu a multidão que povoou duas aldeias, dizia, quando se queria dar ao respeito. Não a conhecera antes de as rugas lhe terem comido a pele, de os ossos terem entortado e de o tronco ter desaparecido entre o pescoço e as ancas. O cabelo deveria em tempos ter bulhado com o lenço preto da viuvez, deveria por fim ter-se resignado antes de cair, até se tornar parte do lenço e este parte dela, como se fora mais um braço, um fígado, um coração.

Hoje escrevia contos dentro das histórias da mãe das aldeias, algumas mais velhas do que a necrópole do monte que, um dia, um historiador do Porto veio fotografar ladeado por meia dúzia de funcionários camarários ansiosos por contabilizar a descoberta. Século VIII ou IX, talvez, disse das duas pedras onde se viam escavadas as formas de um homem e de uma mulher. Nada disse sobre os braços, os fígados e os corações.

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