quarta-feira, 25 de maio de 2011

necrópole

Houve um tempo em que ela ia descalça pela secura da erva e ele se deitava mastigando palhas e contando rostos de velhos no céu. Sorria, imaginando a doçura esquecida pela avó nos bolsos do avental. A avó que era tão pequena, proibida de crescer para não ser maior do que os homens, não sabia bem quais as crianças que eram do seu sangue. Deste corpo saiu a multidão que povoou duas aldeias, dizia, quando se queria dar ao respeito. Não a conhecera antes de as rugas lhe terem comido a pele, de os ossos terem entortado e de o tronco ter desaparecido entre o pescoço e as ancas. O cabelo deveria em tempos ter bulhado com o lenço preto da viuvez, deveria por fim ter-se resignado antes de cair, até se tornar parte do lenço e este parte dela, como se fora mais um braço, um fígado, um coração.

Hoje escrevia contos dentro das histórias da mãe das aldeias, algumas mais velhas do que a necrópole do monte que, um dia, um historiador do Porto veio fotografar, ladeado por meia dúzia de funcionários camarários ansiosos por contabilizar a descoberta. Século VIII ou IX, talvez, disse das duas pedras escavadas com as formas de um homem e de uma mulher. Nada disse sobre os braços, os fígados e os corações.

domingo, 22 de maio de 2011

brigade de ménage à deux

A forma como se tratam os suspeitos nos EUA é revoltante e condenável, assim como o é a forma como a alegada vítima tem sido tratada em França, mas ler o filósofo francês Bernard Henry-Levy defender um tratamento digno para Dominique Strauss-Kahn, não por toda a gente o merecer, sobretudo na condição de presumível inocente, mas porque ele não é um “suspeito qualquer”, é uma coisa extraordinária. Julgava que essas ideias tinha já sido extintas. Mas é distracção minha.

J’en veux, ce matin, au juge américain qui, en le livrant à la foule des chasseurs d’images qui attendaient devant le commissariat de Harlem, a fait semblant de penser qu’il était un justiciable comme un autre.

Os Europeus são tão bons a dar palmadinhas nas suas próprias costas. Tudo o que inventam é justo, humano, democrático, emancipador e igualitário, a menos que seja exportado para outros lugares e venha a ser usado contra um dos nossos. Um dos que gostamos, claro, caso contrário façam o favor de estar à vontade.

A defesa que BHL pretendia fazer de DSK é um tiro nos pés. É muito triste quando nada mais se tem do que a defesa da parcialidade do sistema e teorias sobre a brigade de ménage de duas mulheres, que só tinha uma, para oferecer em defesa de um amigo.