sexta-feira, 1 de abril de 2011

peixinhos

Numa passagem de Cem Anos de Solidão, o coronel Aureliano Buendía, desencantado com a guerra e a política, fechou-se na oficina cortando todo o contacto com a realidade embora ecos dela lhe chegassem por via do comércio dos peixinhos de ouro que fazia e vendia.

«“Não me fales de política”, dizia-lhe o coronel. “A nós, o que nos interessa é vender peixinhos”. O rumor público de que não queria saber nada da situação política porque estava a enriquecer com a sua oficina, fez Úrsula rir com vontade quando chegou aos seus ouvidos. Com o seu tremendo sentido prático ela não conseguia perceber o negócio do coronel, que trocava os peixinhos por moedas de ouro e depois transformava as moedas de ouro em peixinhos e assim sucessivamente, de modo que cada vez tinha de trabalhar mais à medida que mais vendia, para satisfazer um círculo vicioso e exasperante.»

Sempre achei esta incompreensão de Úrsula estranha. Se há coisa que as mulheres, com sentido prático ou não, compreendem muito bem são os círculos viciosos e exasperantes. É por isso que há poucas mulheres interessadas numa carreira política. Não sei, não posso afirmar com certeza, mas havendo tantas mulheres de esquerda, também deve ser por isso que é lá onde menos as vemos chegar aos lugares de topo. É uma pena porque eu gostaria muito de votar numa mulher, a ver se deixávamos de fazer peixinhos.

7 comentários:

sem-se-ver disse...

não sou propriamente uma feminista de gema, mas simplesmente adorei este seu post!

daria pano para mangas, claro, mas fico por aqui: a única campanha em que me envolvi de alma e coração, por profunda convicção, foi a da saudosa Drª Maria de Lurdes Pintasilgo para a Presidência. Uma que sabia, por integridade e sentido prático, que a vida não é feita de peixinhos, dourados ou não.

CNS disse...

Gostei muito, mas muito do seu texto, Maria.

Helena disse...

Grande texto!

m. disse...

Estou consigo. Também gostava. Parabéns pelo texto.

maria n. disse...

Obrigada a todas.

Sem-se-ver, não é tanto pelo feminismo, mas por estar muito farta da mesma forma de fazer política, sempre por homens. Uma coisa nova, diferente, talvez nos desse esperança.

sem-se-ver disse...

sim, naturalmente, nem atribuí intenções feministas ao texto, penso que o captei à primeira. só que o pano para mangas passa por dois lados - o primeiro, nada nos garantir que por se ser mulher não se faça politica da mesma maneira que os homens (os exemplos abundam); o segundo, algo nos garantir que por se ser mulher se pode fazer política de outra maneira - e graças a deus já há exemplos disso mesmo por aí :)

um bom fds

maria n. disse...

Sim, sem-se-ver, também é verdade, mas não acha interessante que quando se fala de política se diga sempre que não há diferenças entre mulheres e homens, logo não vale a pena pensar que seria diferente e muito menos melhor, mas quando se fala de tachos, fraldas e esfregonas apareça logo uma multidão com o argumento da diferença, deixando implícita a ideia de que por serem diferentes é que são "melhores" nesse trabalho?

Bom fds para si também :-)