sábado, 16 de abril de 2011

jarros

Foram-se as camélias e regressaram os jarros e, como sempre, com a sua chegada lembro-me da Grace, uma escocesa que deixou as highlands para se vir enterrar entre colinas e serras minhotas. Portugal assentava-lhe como uma luva, dizia.


Grace gostava muito dos jarros que na Primavera desabrochavam por todos os cantos húmidos da aldeia, enchiam os altares das igrejas e as jarras de todas as casas. Impressionava-a não custarem nada, absolutamente nada pois nasciam onde lhes apetecia sem que ninguém os tivesse plantado, adubado, apaparicado. Na terra dela eram flores exóticas que custavam muito dinheiro e não tardou muito que o seu forte espírito de iniciativa a pusesse a sonhar com uma empresa de exportação de jarros para a Escócia. Os aldeões respondiam a todas as suas perguntas, divertidos com todo aquele interesse nos jarros, superior ao dos caracóis que lhes trepavam os caules. Não era a primeira forasteira que passava por lá. Antes dela houve um holandês barbudo e solitário que comprou um velho moinho em ruínas que ele próprio restaurou; um casal alemão de professores universitários com três filhos pequenos que cresceram entre cabras e ovelhas, violinos e pianos e outros apaixonados pela rugosidade dos rostos, pelas mãos calejadas na natureza e pela aspereza da vida simples que tudo arrancava da terra, vindos atrás de uma qualquer utopia à qual acabavam sempre por sucumbir. Mais tarde ou mais cedo iam-se todos embora, tão inesperadamente como tinham chegado.


Grace investigou, estudou, planeou e tudo recolheu sobre a criação de empresas em Portugal assim como sobre responsabilidades fiscais e, sobretudo, muito praguejou contra a burocracia kafkiana que caracterizava o país ainda não vai assim há tanto tempo. Mas os anos foram passando sobre uma Grace que se sentava no jardim nas noites primaveris à espera dos jarros e a empresa nunca foi criada. Quando o marido, aproveitando uma curta ausência sua, se suicidou com vinho do Porto e dióxido de carbono, enterrou-o no cemitério da aldeia, fechou a casa e partiu. Os vizinhos tiveram pena. Gostavam da Grace que, apesar de ser vegetariana, quis aprender com eles a matar os pica-no-chão e dava explicações de inglês às crianças da aldeia sem aceitar um tostão em troca. Também prestava primeiros socorros e diagnosticava maleitas pois Grace, antes de ser professora, tinha sido enfermeira.


Nunca mais regressou, mas todas as primaveras, por consideração por ela e porque no vaivém de forasteiros um tinha finalmente ficado, os aldeões enchem a campa do escocês com jarros.

(os jarros nas fotografias são do meu jardim e também eles nascem sem que ninguém os tenha mandado)

3 comentários:

CCF disse...

Que bonita a história! Também gosto das flores que nascem assim, sem sabermos de onde (ou seja das sementes do vento).
~CC~

maria n. disse...

:-) Boa Páscoa, CC.

wing disse...

Faltam Graces à nossa volta, gente solidária e altruísta. Valham-nos ao menos os jarros que, como referes, surgem e crescem do nada. Incrivelmente belos, bastam-se a si próprios!
Gostei muito.:)