sexta-feira, 25 de março de 2011

gruta

Num sítio onde morei havia uma ponte. Por baixo das escadas que lhe davam acesso havia uma divisão minúscula à qual não faltava o rectângulo onde nunca foi colocada uma porta. Nunca percebi porque teriam construído a ponte com um quarto sob as escadas, um buraco negro escavado no betão onde a luz nunca entrava e de onde os aracnídeos nunca saíam, mas alguém encontrou uso para ele. Vivia lá um casal, proprietário de uma mochila, um colchão inundo, alguns cobertores e uma lanterna. Era uma gruta com vista para os relvados circundantes e para o riacho que ali passava, um curso de água psicadélico que mudava de cor, uns dias sim, outros dias não, construída por mão humana, com projecto, licenças, empreitada.
Por altura do último censo a gruta ardeu. Vieram os bombeiros e a polícia. Fogo posto, disseram. Ainda bem, pensou a vizinhança. Foda-se, disse o o homem do casal. Agora somos sem-abrigo, disse a mulher.

5 comentários:

Helena disse...

;-)
Bem achado, sim senhora.

Mas, se isso tem alguma coisa a ver com os censos, ;-) , continuo a achar que é um não-caso. Os que vivem em bairros de lata são sem-abrigo? E em casebres sem água nem luz, como infelizmente ainda os há em Portugal? Em roulottes?
Em algum ponto há que traçar a linha da separação.

Divagando um pouco (é a minha especialidade) quase estaria capaz de alinhar a condição de sem-abrigo pela de sem-televisão. Se tem televisão, tem abrigo...
(exceptuando os casos dos que não têm porque não querem, mas se quisessem podiam ter)

maria n. disse...

População sem-abrigo

Considera-se sem-abrigo toda a pessoa que, no momento censitário, se encontra a viver na rua ou outro espaço público como jardins, estações de metro, paragens de autocarro, pontes e viadutos, arcadas de edifícios entre outros, ou aquela que, apesar de pernoitar num centro de acolhimento nocturno (abrigo nocturno) é forçada a passar várias horas do dia num local público. Está nesta última situação a pessoa que, apesar de poder jantar e dormir num abrigo nocturno, é obrigada a sair na manhã seguinte.


Definição de sem-abrigo segundo o Censos2011, que depois excluí as pessoas que vivem em "abrigos naturais, por exemplo grutas".

A minha perplexidade é esta: porque é que quem vive numa ponte (como o casal do meu texto), é sem-abrigo e quem vive num abrigo natural, como uma gruta, não é? Porque é que a natureza serve de linha de separação?

Helena disse...

Interpretei esse "pontes e viadutos" como viver literalmente debaixo da ponte. Nunca me ocorreu que alguém construísse uma espécie de quartinho sob a ponte, mas se existe, parece-me bastante mais próximo da barraca de lata que do ainda mais desgraçado "viver debaixo da ponte".

E as grutas? De que falamos quando falamos de grutas? Não será confortável, mas pelo menos tem um carácter de mais resguardo e "residência fixa", que uma paragem de autocarro ou um viaduto não terão.

Quanto mais penso nestas coisas, menos me apetece estar dentro da pele do pessoal do INE.

sem-se-ver disse...

helena,
nao concordo contigo (fiz post com mera transcriçao do texto do inem), andar praqui a traçar fronteiras, limites e linhazinhas tem unicamente uma consequencia - falsear numeros. e isso é que é tramado. um desgraçado sema-brigo foi colhido temporariamente por ti ou por mim e aproveitamos para lhe preencher o census e eis senao quando, oh milagre!, afinal ele não é sem-abrigo porque naquele dia estava sob um tecto. haja paciencia...

(desc a intrusão, Maria)

maria n. disse...

Helena,
Eles viviam literalmente debaixo da ponte. Teriam de pôr o colchão do lado de fora do quartinho para serem sem-abrigo?

Uma gruta, seja natural seja de betão, não tem mais resguardo do que uma estação de metro, nem tão pouco mais carácter de residência fixa. É pior!

Compreendo que seja difícil encaixar todas as situações numa única definição, mas esta da gruta deixou-me de boca aberta.

Sem-se-ver,
Ora essa, não é intrusão nenhuma :-)