quarta-feira, 9 de março de 2011

É o véu, estúpida

O que elas pensam pouco interessa, a menos que o que elas pensam seja o mesmo que nós. Não é, por isso, surpresa que agora se calculem as intenções das revoltas nos países árabes usando o mesmo algoritmo de sempre: o que lhes cobre a cabeça. “É o véu, estúpida”. Esta frase cliché que foi interiorizada no Ocidente é demasiado simples para significar alguma coisa para os milhões de mulheres que o usam. Se fossemos todos mulheres árabes, analfabetas, sem emprego, economicamente dependentes dos homens, sem as mínimas condições de vida, sujeitas à ausência de direitos civis tão básicos como o de transmitir a nossa nacionalidade aos filhos ou aos maridos, ao falseamento do nosso voto, às manipulações repressivas do clero, que os déspotas ora perseguiam, ora aparicavam, mas a quem sempre entregaram a ajuda à pobreza, provavelmente acharíamos hilariante, se isto fosse para rir, a obsessão do Ocidente com o que cobre o cabelo. Esta ironia foi muito bem registada na música de Master Minz: first give me a job, then let's talk about my hijab.

Para além de servir como barómetro para calcularmos a probabilidade de nos tornarmos em alvos a abater, recusar o véu passou a ser visto como um direito, o principal deles todos sem o qual nenhum outro é possível, enquanto que o direito, o verdadeiro, à auto determinação do corpo vai sendo menorizado e esquecido. Compreensível, por um lado, e hipócrita por outro. Este direito significa também que se pode optar por cobrir o rosto e todo o corpo, degenerando na perversão do próprio direito quando é instrumentalizado a favor da submissão e inferiorização da mulher, o que, justificadamente, nos revolta e preocupa e deve sempre preocupar, como deveria preocupar, mas não preocupa nada, a degeneração e instrumentalização em sentido oposto.

Hoje, é o Dia Internacional da Mulher. Enquanto por cá quase ninguém assinala o dia, no Egipto um grupo de mulheres resolveu fazer precisamente isso. Assinalar o dia e o seu centenário, desfilando na Praça Tahir para exigir a igualdade.

Não correu bem, mas sabiam que seria assim. Foram insultadas, agredidas, sexualmente assediadas. Tentaram correr com elas e ridicularizaram os homens que se associaram à manifestação. Houve polémica também entre as mulheres, prova de que elas pensam sobre o que as afecta e sobre as formas como devem expressar as suas preocupações no sentido de encontrarem o melhor caminho para chegarem aos seus objectivos, assim como as prioridades entre essas preocupações. Para umas e para outras, o véu não é uma delas.

 
Tahseen Bakr

Ao ler os sites e blogues das organizações feministas e de mulheres árabes, verifiquei também aí a quase total ausência do tema do véu. Quando aparece, geralmente é para se oporem à sua imposição, invocando por vezes versículos do Corão e pareceres de imãs mais progressistas que desaconselham o uso contra a vontade, não para se oporem ao véu per se. É a literacia, os problemas económicos e sociais (como o assédio sexual), que mais as preocupam.

The Guardian

Interessante a quase não utilização da palavra feminista. É uma palavra que cheira a Ocidente e o que cheira a Ocidente é perigoso. Um povo que se sente historicamente injustiçado por esse mesmo Ocidente, que ainda não venceu as elevadíssimas taxas de analfabetismo, cuja maioria não tem ainda acesso à internet, desconfia dos símbolos desse Ocidente. Forças repressivas sempre souberam capitalizar esse aspecto psicológico a seu favor, utilizando as ideias de moralidade, desintegração cultural e identitária, assim como a invasão estrangeira, para se auto justificarem. A frase “É o véu, estúpida” poderá ser verdadeira, mas não da forma como julgamos ser. É verdadeira porque percebemos, quando nos damos ao trabalho de as escutar, que ao vivermos obcecados com o seu uso alimentamos a obsessão dos que vivem obcecados com as mulheres que não o usam.

(texto escrito ontem)

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