quinta-feira, 3 de março de 2011

Cleópatra

Foi nessa rua ,no expositor de um quiosque minúsculo embutido numa esquina, que vi a primeira mulher nua naquilo a que se poderia chamar uma pose pornográfica: uma pin-up loura com marrafa a varrer os olhos maquilhados à Cleópatra e um sorriso estranho para quem estava toda nua sentada num penico verde alface.
A anatomia da mulher adulta nada trazia de novo, mas sim o que se podia fazer com a nudez e o efeito que ela tinha nos rapazes, cabelo cortado à escovinha, que ali se agrupavam para colherem o benefício que a recente liberdade aprilina lhes trouxera. Derretiam numa massa moldável sob o olhar promíscuo da Cleópatra, apatetando-se nos olhares que deitavam às raparigas mais velhas, cujas saliências, às vezes, apalpavam em passo de fugida. Uma revelação, a contradição entre a domesticação e a selvajaria.

O senhor Martins, percebendo o potencial do erotismo na multiplicação dos lucros, espalhava pelas paredes das casas vizinhas jornais e revistas, quebra-cabeças e estórias do Tio Patinhas, livros de colorir e revistas eróticas, aleatoriamente, sem qualquer censura ou preocupação com as crianças que se encostavam aos expositores esbugalhando os olhos entre uma fungadela e uma lambidela no chupa-chupa. E se as mulheres nuas vendiam e ajudavam a vender o que tinha pouca saída, talvez os homens nus fizessem o mesmo. Nos expositores foram aparecendo também os pénis embora quase sempre sob a forma de cartoons, desenhados por homens - está-se mesmo a ver - que exageravam nas medidas.

Há uma altura em que as mamas deixam de estar na mesma categoria das orelhas e um pénis deixa de ser equivalente a um nariz, ainda que os únicos que eu tivesse visto até aí fossem os dos meus irmãos e que, misteriosamente, desapareceram da vista quando atingiram a puberdade. O povo idolatra o pénis bebé, não perde uma oportunidade de o exibir, dá-lhe beijinhos, chama ao seu dono “pilas” com ternura e acha graça às erecções sem razão aparente de ser, mas o seu reinado é curto. São as mamas que enchem os olhos do mundo, razão pela qual, passada a embriaguez libertina daqueles dias, o senhor Martins foi aperfeiçoando a arte de distribuição de mamas pelo expositor removendo simultaneamente os pénis. A breve pornografia democrática foi-se tornando totalitária e eu apenas voltaria a ver um pénis adulto alguns anos mais tarde, pendurado num exibicionista que o escancarava às raparigas que, para atalhar caminho, atravessavam o jardim a caminho do liceu.

A imagem em colorido vintage da Cleópatra e do seu penico ficou para sempre nas minhas memórias. Mais tarde, encontraria fotografias de mulheres nuas penduradas nas paredes de casas de banho. Havia muita gente que apreciava a relação entre mulheres nuas e esses espaços ou os seus objectos. Hitchcock “matou” uma mulher nua na casa de banho, uma cena que jamais deixaria de ser repetida, deixando-nos para sempre à espera do braço que empunha a navalha quando num filme vemos uma mulher no duche. É sempre horrível, um alívio quando nada acontece, mas que quando acontece nos deixa pregados à cadeira numa imobilidade que tem qualquer coisa de perverso. Um certo estado de alma que resulta do jogo entre o conforto da privacidade e a animalidade que esses pequenos espaços contêm.

Tenho por essa Cleópatra uma espécie de carinho. Uma espécie de nostalgia pelo tempo em que o mundo se revelava de repente, apanhando-me desprevenida, assim sem preparações nem cuidados, no quiosque de uma esquina.

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