quinta-feira, 31 de março de 2011

alma lusa

Já ninguém quer ser português. Fora do país fazem os possíveis para que ninguém perceba qual é a sua origem. Vejo-os nas minhas viagens – topam-se de longe, os lusitanos – falando idiomas europeus entre si, aderindo aos tiques de cosmopolitas que não são, fingindo nada ter a ver com o patrício imigrante do lado, o trolha e a mulher-a-dias semi-analfabetos, que ainda não ganharam vergonha na cara de serem os mais pobres e atrasados da Europa e lhes arranham os ouvidos com pronúncias do interior, a lembrar-lhes aquilo que também são. Gostariam de ser espanhóis, qualquer coisa que cheire a progresso. A respeito.


De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.

2 comentários:

Anónimo disse...

Realmente é triste os filhos rejeitarem a costela portuguesa.

maria n. disse...

Aqui não se rejeita nada. Aproveitam-se as costelas todas.