De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.
quinta-feira, 31 de março de 2011
alma lusa
De saída para Lisboa onde obterei os passaportes alemães dos meus filhos, penso nisto tudo com tristeza. Pesando as duas costelas, o mais velho não tem dúvidas sobre a que prefere que o defina. Penso na costela portuguesa que também têm e gostaria de lhes dizer que oito séculos de história valem qualquer coisa. Uma determinação, vinda sabe-se lá de onde; uma vontade dos avós que têm mortos em panteões arejados para os turistas, e que acreditaram sempre, mesmo quando acreditar foi a pior escolha, nessa coisa a que chamam alma lusa. Mas é uma alma inventada num Viriato que nunca foi português. De certeza vem daí o engano. Fomos iludidos pela história a sermos epígonos de um mito que nos ensinaram nas lousas da primária, onde desenhávamos Afonsos de espada em punho e Rainhas Isabéis que se desfaziam em rosas; e onde nunca perdíamos braços de ferro com o estrangeiro excepto quando era necessário justificar a santidade de um Infante. Enganaram-se na figura, diz-me o mais velho. Mais valia fazer recuar a tal de alma aos que traíram o herói.
sexta-feira, 25 de março de 2011
gruta
Num sítio onde morei havia uma ponte. Por baixo das escadas que lhe davam acesso havia uma divisão minúscula à qual não faltava o rectângulo onde nunca foi colocada uma porta. Nunca percebi porque teriam construído a ponte com um quarto sob as escadas, um buraco negro escavado no betão onde a luz nunca entrava e de onde os aracnídeos nunca saíam, mas alguém encontrou uso para ele. Vivia lá um casal, proprietário de uma mochila, um colchão inundo, alguns cobertores e uma lanterna. Era uma gruta com vista para os relvados circundantes e para o riacho que ali passava, um curso de água psicadélico que mudava de cor, uns dias sim, outros dias não, construída por mão humana, com projecto, licenças, empreitada.
Por altura do último censo a gruta ardeu. Vieram os bombeiros e a polícia. Fogo posto, disseram. Ainda bem, pensou a vizinhança. Foda-se, disse o o homem do casal. Agora somos sem-abrigo, disse a mulher.
sábado, 19 de março de 2011
lua
quarta-feira, 16 de março de 2011
paralelismos sem pés dem cabeça
«Importa que os jovens deste tempo se empenhem em missões e causas essenciais ao futuro do país com a mesma coragem, o mesmo desprendimento e a mesma determinação com que os jovens de há 50 anos assumiram a sua participação na guerra do Ultramar.» - Cavaco Silva
Não sei o que é mais chocante nas coisas que de vez em quando Cavaco Silva diz: se é a aparente ignorância da História, a sombra Salazarista que nunca o abandonou ou se é o atrevimento. Como se atreve a fazer paralelismos destes? O insulto chega a todos, aos jovens de há 50 anos e aos jovens de hoje. Aos de ontem porque eram autêntica carne para canhão, sem possibilidade de questionar sequer a utilidade da guerra colonial quanto mais rejeitá-la. Aos de hoje porque os toma por parvos. Deprimente.
Quando os meus tios regressaram do Ultramar, logo a seguir ao 25 de Abril, era isto o que mais ouviam.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Libia
12 de Março
sábado, 12 de março de 2011
a democracia prejudica o país
«Sonho com uma retrete massiva e imaculada.Torneiras douradas brilhantes, mármore branco virginal, um assento esculpido em ébano, um autoclismo cheio de Chanel Number 5 e um lacaio entregando-me pedaços de rolo de seda pura. Mas, nestas circunstâncias, contento-me com qualquer coisa.»
- Trainspotting - 1996
(um bom resumo do que alguns pensam que os jovens pensam e do que gostariam que eles fizessem)
quarta-feira, 9 de março de 2011
Tahir hoje, Eduardo VII ontem
É o véu, estúpida
Para além de servir como barómetro para calcularmos a probabilidade de nos tornarmos em alvos a abater, recusar o véu passou a ser visto como um direito, o principal deles todos sem o qual nenhum outro é possível, enquanto que o direito, o verdadeiro, à auto determinação do corpo vai sendo menorizado e esquecido. Compreensível, por um lado, e hipócrita por outro. Este direito significa também que se pode optar por cobrir o rosto e todo o corpo, degenerando na perversão do próprio direito quando é instrumentalizado a favor da submissão e inferiorização da mulher, o que, justificadamente, nos revolta e preocupa e deve sempre preocupar, como deveria preocupar, mas não preocupa nada, a degeneração e instrumentalização em sentido oposto.
Hoje, é o Dia Internacional da Mulher. Enquanto por cá quase ninguém assinala o dia, no Egipto um grupo de mulheres resolveu fazer precisamente isso. Assinalar o dia e o seu centenário, desfilando na Praça Tahir para exigir a igualdade.
Não correu bem, mas sabiam que seria assim. Foram insultadas, agredidas, sexualmente assediadas. Tentaram correr com elas e ridicularizaram os homens que se associaram à manifestação. Houve polémica também entre as mulheres, prova de que elas pensam sobre o que as afecta e sobre as formas como devem expressar as suas preocupações no sentido de encontrarem o melhor caminho para chegarem aos seus objectivos, assim como as prioridades entre essas preocupações. Para umas e para outras, o véu não é uma delas.
The Guardian
Interessante a quase não utilização da palavra feminista. É uma palavra que cheira a Ocidente e o que cheira a Ocidente é perigoso. Um povo que se sente historicamente injustiçado por esse mesmo Ocidente, que ainda não venceu as elevadíssimas taxas de analfabetismo, cuja maioria não tem ainda acesso à internet, desconfia dos símbolos desse Ocidente. Forças repressivas sempre souberam capitalizar esse aspecto psicológico a seu favor, utilizando as ideias de moralidade, desintegração cultural e identitária, assim como a invasão estrangeira, para se auto justificarem. A frase “É o véu, estúpida” poderá ser verdadeira, mas não da forma como julgamos ser. É verdadeira porque percebemos, quando nos damos ao trabalho de as escutar, que ao vivermos obcecados com o seu uso alimentamos a obsessão dos que vivem obcecados com as mulheres que não o usam.
(texto escrito ontem)
quinta-feira, 3 de março de 2011
ler os jornais
Lembra-me de novo porque leio cada vez menos jornais. Dizem-nos o que se passa no mundo, mas não são boas ferramentas para um bom conhecimento dele. Frequentemente são meras fábricas de estereótipos. Há excepções, claro, felizmente podem-se encontrar online. Anyway, esta fantástica série tem uma perspectiva interessante sobre os jornais. Prova de que as coisas realmente boas são sempre actuais.
Cleópatra
Foi nessa rua ,no expositor de um quiosque minúsculo embutido numa esquina, que vi a primeira mulher nua naquilo a que se poderia chamar uma pose pornográfica: uma pin-up loura com marrafa a varrer os olhos maquilhados à Cleópatra e um sorriso estranho para quem estava toda nua sentada num penico verde alface.
A anatomia da mulher adulta nada trazia de novo, mas sim o que se podia fazer com a nudez e o efeito que ela tinha nos rapazes, cabelo cortado à escovinha, que ali se agrupavam para colherem o benefício que a recente liberdade aprilina lhes trouxera. Derretiam numa massa moldável sob o olhar promíscuo da Cleópatra, apatetando-se nos olhares que deitavam às raparigas mais velhas, cujas saliências, às vezes, apalpavam em passo de fugida. Uma revelação, a contradição entre a domesticação e a selvajaria.
O senhor Martins, percebendo o potencial do erotismo na multiplicação dos lucros, espalhava pelas paredes das casas vizinhas jornais e revistas, quebra-cabeças e estórias do Tio Patinhas, livros de colorir e revistas eróticas, aleatoriamente, sem qualquer censura ou preocupação com as crianças que se encostavam aos expositores esbugalhando os olhos entre uma fungadela e uma lambidela no chupa-chupa. E se as mulheres nuas vendiam e ajudavam a vender o que tinha pouca saída, talvez os homens nus fizessem o mesmo. Nos expositores foram aparecendo também os pénis embora quase sempre sob a forma de cartoons, desenhados por homens - está-se mesmo a ver - que exageravam nas medidas.
Há uma altura em que as mamas deixam de estar na mesma categoria das orelhas e um pénis deixa de ser equivalente a um nariz, ainda que os únicos que eu tivesse visto até aí fossem os dos meus irmãos e que, misteriosamente, desapareceram da vista quando atingiram a puberdade. O povo idolatra o pénis bebé, não perde uma oportunidade de o exibir, dá-lhe beijinhos, chama ao seu dono “pilas” com ternura e acha graça às erecções sem razão aparente de ser, mas o seu reinado é curto. São as mamas que enchem os olhos do mundo, razão pela qual, passada a embriaguez libertina daqueles dias, o senhor Martins foi aperfeiçoando a arte de distribuição de mamas pelo expositor removendo simultaneamente os pénis. A breve pornografia democrática foi-se tornando totalitária e eu apenas voltaria a ver um pénis adulto alguns anos mais tarde, pendurado num exibicionista que o escancarava às raparigas que, para atalhar caminho, atravessavam o jardim a caminho do liceu.
A imagem em colorido vintage da Cleópatra e do seu penico ficou para sempre nas minhas memórias. Mais tarde, encontraria fotografias de mulheres nuas penduradas nas paredes de casas de banho. Havia muita gente que apreciava a relação entre mulheres nuas e esses espaços ou os seus objectos. Hitchcock “matou” uma mulher nua na casa de banho, uma cena que jamais deixaria de ser repetida, deixando-nos para sempre à espera do braço que empunha a navalha quando num filme vemos uma mulher no duche. É sempre horrível, um alívio quando nada acontece, mas que quando acontece nos deixa pregados à cadeira numa imobilidade que tem qualquer coisa de perverso. Um certo estado de alma que resulta do jogo entre o conforto da privacidade e a animalidade que esses pequenos espaços contêm.
Tenho por essa Cleópatra uma espécie de carinho. Uma espécie de nostalgia pelo tempo em que o mundo se revelava de repente, apanhando-me desprevenida, assim sem preparações nem cuidados, no quiosque de uma esquina.









