Não vos acontece, às vezes, acordar e ter a impressão que acordaram noutra cama? De precisar de alguns momentos para se lembrarem do vosso quarto, dos objectos familiares, a forma como a luz incide na janela e para que lado abre a porta? E depois repararem que afinal estão mesmo na vossa cama, no vosso quarto, na vossa aldeia, no vosso país e que tudo faz sentido na sua forma tão peculiar de não fazer sentido algum?
Foi isso que me aconteceu quando vi portugueses numa manifestação carregando caixões.
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
caixão
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
inclinação
dantes é que era bom
É uma coisa recorrente. De vez em quando surgem notícias de que o povo acha que vivia melhor antes do 25 de Abril do que hoje e de todas as vezes se dizem as mesmas coisas. Seria de esperar que nesta altura da história das omeletas já se tivesse percebido que não é de esperar uma resposta diferente. É claro que quase toda a gente estava melhor quando quem pergunta está directa ou indirectamente ligado a quem comanda o nosso destino. Para os que são próximos a resposta é outra: as histórias da roupa partilhada e remendada, de uma sardinha para toda a família, dos quilómetros percorridos a pé descalço para ir à escola onde se apanhava muita porrada, etecetera, saltam do baú a cada oportunidade para moralizar os “esbanjadores” e são sempre rematadas pelo "nem te passa pela cabeça o que eu sofri que isto agora são só facilidades".
Ninguém esqueceu coisa nenhuma, mas a memória é selectiva, depende de quem pergunta e das intenções que quem responde julga ser as de quem pergunta.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
matriosca
A Última estava vazia.
A Penúltima sabia que a Última estava vazia e sentia-se alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia.
A Terceira não sabia bem o que fazia ali mas sabia que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas pelos sacrifícios que suportavam como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Quinta, que tinha visitado a Mãe na sua terra de origem, não tinha mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo.
A Mãe, que não se integrava em nada porque nunca tirava o lenço da cabeça, pensou que a Quinta enlouquecera por não ter mãos a medir com todas as coisas que tinha para dizer sobre os sacrifícios que a Quarta, como nada tinha para dizer e nada podia resolver, agradecia a todas como boas donas de casa que eram, sobretudo a Terceira que não sabia bem o que fazia ali apesar de saber que a Penúltima, que estava alegre porque pensava que era a única que sabia que a Última estava vazia, tinha um segredo,
e assim percebeu que era muito velha e que estava cansada, tão cansada que se esqueceu de tudo dentro dela, como todas temos de fazer no fim.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
guimarães
A fotografia publicada pelo NYT é da Pousada de Santa Marinha, local onde fiz muitos piqueniques na adolescência (na altura o mosteiro estava em ruínas). Façam o favor de seguir o conselho que vale bem a pena.
fundos FMI/UE
O sucesso foi um falhanço.
A few more successes and the European periphery will be destroyed. - Paul Krugman
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
bom ano novo
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.
(...)
This covers me, that erst had the blue sky.
This soil treads me, that once I trod. My hand
Put these inscriptions here, half knowing why;
Last, and hence seeing all, of the passing band.
- Fernando Pessoa : Inscriptions, English Poems



