sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

sex by surprise

A forma como as mulheres que apresentaram queixa contra Julian Assange têm sido descritas, independentemente de as alegações terem fundamento ou não, coisa que só a justiça sueca poderá apurar, deveria incomodar porque repete todos os clichés sobre as vítimas de violação, mas parece que a defesa da liberdade de expressão de Assange também passa por julgar as queixosas na praça pública. Desenterram-se alguns factos sobre as mesmas - uma delas é feminista radical, entre outras coisas, informação muito importante porque sozinha é meio caminho andado para a condenação pública das duas mulheres - e distorce-se o teor da queixa. A lógica é assim: quanto mais bruxas parecerem as suecas e mais banana a Suécia, mais se confirma a teoria da conspiração da CIA e mais herói parece o Assange.

A forma como tudo se desenrolou, coincidindo com a publicação dos telegramas e a perseguição que foi montada a Assange, lança muitas suspeitas sobre estas alegações. De facto parece existir aqui uma dinâmica que faz lembrar outras histórias de gente acusada injustamente, presa e transferida para prisões obscuras sem terem cometido qualquer crime, o que nos torna cépticos e receosos em relação a tudo isto.

O cepticismo é muito saudável, mas é interessante verificar como o mesmo é trocado pela certeza com base em artigos de tablóides que se preocupam mais em desenterrar o passado das duas mulheres, a cor do cabelo delas e da roupa que usam, o tamanho do decote e outras informações disparatadas, do que em verificar correctamente as alegações que elas fazem. Parece haver muita gente pronta a acreditar, sem nenhuma pontinha de cepticismo, que há mesmo um país europeu onde não usar preservativo é crime e que o mesmo dá pelo nome de sex by surprise.

O crime "sex by surprise" não existe no código penal sueco, mas existe o crime de sexo sem consentimento. Este pode ser retirado a qualquer momento durante a relação sexual. Se a meio do sexo consensual um dos parceiros retira o consentimento (por exemplo, quando o preservativo se rompe) e o outro ignora esse pedido, continuando a relação contra a vontade do primeiro, trata-se de violação.

É possível defender a presunção da inocência de Assange, suspeitar de manobras por trás das acusações, achá-lo um herói ou um cromo, e tudo mais arroz com pardais, sem alimentar campanhas misogenistas que visam desacreditar a generalidade das vítimas de violação. Parece incrível, mas é mesmo possível.

3 comentários:

Helena disse...

Vou já ver o que andei a dizer sobre o assunto. Cheira-me que terei de enviar um pequeno barrete...

Muito bem visto, sim senhora.

Anónimo disse...

Obrigado por este destacamento, foi bastante útil e disse um monte

Menina Limão disse...

Havia qualquer coisa a incomodar-me que eu não conseguia verbalizar. Era isto.