sábado, 6 de novembro de 2010

doçura





Hu Jintao está de visita à Europa e, segundo o Editorial do Global Times de ontem, intitulado "Open minds needed for China-EU ties", a chatice toda não é levantar a questão dos direitos humanos. A chatice é fazê-lo numa altura imprópria.
Out of traditional prejudice over the ideological path China chose to take, some European countries opted to side with the Dalai Lama, to issue the Nobel Peace Prize to China's dissidents, and to raise human rights issues during improper occasions.

It should not take too much effort for European countries to develop a sweet relationship with China that benefits everyone.

(...)
Europeans need to keep an open mind when dealing with China. They need to learn that just because Chinese people have a different lifestyle and value system, it does not mean that China wants to topple traditional European values.

This exchange is an extension of freedom in the world.
Este discurso, tão comum vindo de onde vem, que pretende dar a ideia de que haverá um tempo apropriado para os direitos humanos faz exactamente o oposto: eterniza o tempo em que é impróprio tratar desta questão. O Nobel da Paz expôs esta falsa premissa da evolução gradual do governo chinês, mas por lá continuam a pensar que por cá ninguém percebeu. Querem um "relacionamento doce" com o resto do mundo numa tentativa patética de reconciliar uma visão estreita desse mundo com uma cacofonia de perspectivas alternativas que teimam entrar-lhes pela casa dentro. Pedem-nos uma mente aberta à sua mente fechada. Querem de facto que fechemos a nossa mente.

Pressionar os países europeus para não se fazerem representar na cerimónia de atribuição do Nobel a Liu Xiaobo, depois de ter feito todos os possíveis para impedir a atribuição desse Nobel (nunca um país que tanto sonha com um Nobel fez tanto lobby para não receber um), deve fazer parte desse "relacionamento doce" que o partido único chinês quer ter com a Europa.  Esta doçura toda não é para atropelar os nossos valores, como o da liberdade de expressão, é para aprendermos uma ou duas coisas sobre a liberdade. O governo chinês não quer amigos. Quer bajuladores e, sorte deles, vai encontrá-los por cá.

(Interessante como a palavra "doce" aparece ligada a ideologias que praticam a supressão nada doce das vozes da oposição. O grupo de apoio de Mahmoud Ahmadinejad chama-se "Sweet Scent of Service", o doce perfume do serviço.)

Adenda: Existe uma petição pela representação portuguesa na cerimónia de entrega do Nobel da Paz a Liu Xiaobo que pode ser assinada aqui.

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