domingo, 10 de outubro de 2010

nevoeiro

Por vezes zangávamo-nos num dia de chuva. Tu agarravas a gabardina e saías batendo a porta. Da janela seguia os teus passos pela avenida adivinhando o jardim que irias contornar para chegar à praça onde, ao centro, dois leões gigantescos abriam a boca para o céu. Espiava a tua ausência pela janela pensando que a vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava – pensava tantas coisas – em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que nunca mais voltaria? Que seria esperado numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que se espera alguém que não regressa?

Horas depois a tua silhueta reaparecia ao fundo da avenida. Ouvia o bater pacífico da porta da rua, os passos nas escadas, as chaves nas mãos que não chegavas a usar porque eu abria a porta antes de ti e tu sorrias e o teu sorriso esperava que te beijasse e te perdoasse e eu não te beijava nem te perdoava. A vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava - pensava tantas coisas - em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que voltaria numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que já não se espera quem regressa?

4 comentários:

CCF disse...

Lindo. Mas triste...ou não!?
~CC~

maria n. disse...

Julgo que não, CC, mas também não é feliz. Está algures entre um estado e o outro :-)

Anónimo disse...

Se há dia mais bonito? Eu diria que sim!O dia em que se espera...

maria n. disse...

Anónimo,

Por vezes é, quando se espera e não se desespera.