sexta-feira, 8 de outubro de 2010

convite

A convite do Delito de Opinião escrevi um texto que foi hoje publicado. O Delito é um dos melhores blogues que conheço, não apenas pela qualidade da escrita e a diversidade de temas, mas também por ser um local onde nos sentimos sempre muito bem e onde os leitores são sempre bem recebidos. Agradeço ao Delito a hospitalidade.

Publico aqui também.

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Diana

Entrou por fim no casarão onde uma estátua da deusa Diana se debruçava do terraço sobre a rua. Anos antes, quando Diana ameaçara suicidar-se, prenderam-na com cordas de ferro ao chão poupando a vida do formigueiro da rua e a solidão dos cães azul-marinho que a ladeavam. Remendos de cimento foram aplicados no pedestal para conter o esboroamento das argamassas antigas, sujando-lhe a fímbria do vestido, e a fenda que o trepava foi interrompida por um abraço de ferro que depressa enferrujou na cintura estrangulada. O parapeito branco ao qual a estátua estava encostada, de frente para os telhados da cidade e de costas para a casa, parecia ceder sob a vertigem que sentia ao espreitar a rua. Benvinda aproximou-se dele para estudar o perfil de Diana. Logo recuou no terraço com o coração aflito.

Havia muitas crianças e adolescentes na casa, para além do irmão mais velho já adulto, explicara Teresa à Benvinda quando trepavam a imensa escadaria. A família de Teresa, grande à moda antiga, ocupava o rés-do-chão e os três andares. No último situava-se a cozinha e a sala de jantar ligadas por um corredor premiado com a luz de uma clarabóia imponente. A sala comunicava com o terraço separado desta por uma fila de janelas que preenchia toda a parede.

Quando recomeçou a chover Benvinda abandonou o terraço e regressou à sala. Os contornos de Diana esbatiam-se sob a chuva diluindo o seu desenho de mármore nas vidraças. A irmã, imediatamente a seguir à Teresa, fazia os trabalhos da escola esfarelando a borracha contra os cadernos que enchia de formigas brancas. Os livros expandiam-se pela mesa, entre eles a enciclopédia onde iriam procurar Diana. Sem vontade, mas não querendo que se notasse, Benvinda concordou com a ideia de fazerem pequenas bonecas com vestidos cónicos de cartolina e cabeças de pingue-pongue onde colariam fios de seda branca ornamentados com uma lua crescente feita com meio botão de madrepérola.

Recortou o lado direito da base do cone da sua deusa para simular um pé boto. Igual ao dela. Incomodava-a o interesse das amigas na deusa Diana, tão concentradas no adorno das bonecas, pintando o contorno dos olhos, pestanas oblíquas e lábios vermelhos nas bolas de pingue-pongue. Arcos e flechas de papel colados nos cones.

Pressentia ali uma ameaça. Os ícones de pau-preto que vieram de África embrulhados com ela em papel de jornal, que ela usava para as encher de terror e inventar rituais que deveriam cumprir para se protegerem, estavam a perder o seu poder. Já não estavam interessadas neles nem na aparição que ela inventara sobre um penedo, exigindo-lhes que comessem o chão. Era óbvio que já tinham esquecido o sabor da relva que evitava apocalipses. Substituíam-no por uma caçadora e agora o seu pé boto iria comer-lhe a carne pela perna acima e depois o tronco e os braços. Iria triturar a ossatura de passarinho, consumindo até os dentes, tomando por fim o seu lugar.

Por um momento pareceu-lhe que se precipitava sobre um parapeito que cedia. Carecia de um abraço de ferro que lhe estrangulasse a cintura, um tremeluzir no cabelo, uma argamassa de ternura.


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