segunda-feira, 25 de outubro de 2010

autocomplete

As crianças desapareceram. Cresceram e emigraram todas.
Dantes os pais iam para Espanha, hoje vão os filhos para a Suíça. O filho da Prazeres, que costumava fugir da escola saltando as grades e tinha jeito para a mecânica, também foi. Dispensando a cerimónia católica, casou à pressa no civil porque não queria ir sem a namorada. Quem vem da Suíça matar saudades nunca parte só, leva sempre consigo mais alguns braços para trabalhar na construção civil. Há um interesse mútuo: dos que vão porque querem uma vida melhor e dos que recrutam para o patrão suíço, sempre com muita pressa, tudo tem de ser feito da noite para o dia para que não se percam oportunidades de ouro.
"Para o próximo Verão", disse-lhe a mãe, "fazemos a festa na igreja. Ela terá o seu vestido de noiva e tu, o teu fato de casamento. Convidaremos a família e faremos o copo-de-água cá em casa. Temos muito espaço" - a Prazeres tem um café numa rua e um restaurante noutra, mas ficam ambos na mesma casa que é também a casa dela - "e teremos muita música". Parece-me uma ameaça - a Prazeres tem altifalantes no café por onde sai a música pimba que me fere os ouvidos em certas noites de Verão.

O Google sabe tudo isto. Vai registar e guardar as minhas observações no seu cache, mas não precisa delas.


É possível saber tudo sobre um povo pelo autocomplete. O que o povo é coincide com o que o preocupa que seja.


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