segunda-feira, 25 de outubro de 2010

autocomplete

As crianças desapareceram. Cresceram e emigraram todas.
Dantes os pais iam para Espanha, hoje vão os filhos para a Suíça. O filho da Prazeres, que costumava fugir da escola saltando as grades e tinha jeito para a mecânica, também foi. Dispensando a cerimónia católica, casou à pressa no civil porque não queria ir sem a namorada. Quem vem da Suíça matar saudades nunca parte só, leva sempre consigo mais alguns braços para trabalhar na construção civil. Há um interesse mútuo: dos que vão porque querem uma vida melhor e dos que recrutam para o patrão suíço, sempre com muita pressa, tudo tem de ser feito da noite para o dia para que não se percam oportunidades de ouro.
"Para o próximo Verão", disse-lhe a mãe, "fazemos a festa na igreja. Ela terá o seu vestido de noiva e tu, o teu fato de casamento. Convidaremos a família e faremos o copo-de-água cá em casa. Temos muito espaço" - a Prazeres tem um café numa rua e um restaurante noutra, mas ficam ambos na mesma casa que é também a casa dela - "e teremos muita música". Parece-me uma ameaça - a Prazeres tem altifalantes no café por onde sai a música pimba que me fere os ouvidos em certas noites de Verão.

O Google sabe tudo isto. Vai registar e guardar as minhas observações no seu cache, mas não precisa delas.


É possível saber tudo sobre um povo pelo autocomplete. O que o povo é coincide com o que o preocupa que seja.


sábado, 23 de outubro de 2010

moda para ele em tempos de crise



Vamos lá dar uso aos naperons em croché. O designer estaria a pensar na austeridade, criando um visual muito fácil de replicar em casa, ou apenas a rir-se?

depressão

The unspeakable depression of lighting the fires every morning with papers of a year ago, and getting glimpses of optimistic headlines as they go up in smoke
 
George Orwell, em 19 de Outubro de 1940, mas que poderia ter sido escrito hoje.

my home is my shoes

I don't know what that is 
but whatever it is 
it is something that I thought I was doing with my feet


My home is my shoes, Will from Debbie Anzalone on Vimeo.

Will Gains nasceu em Detroit mas o registo do seu nascimento não existe. Dançou ao lado de músicos como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald. Na casa dos oitenta permanece um dos melhores tap dancers do mundo. Vive no Reino Unido há mais de 50 anos.

"Magia é andar na lua", diz Will. Eu diria que magia também é ouvir o som que sai dos seus pés e a sua voz, pois até quando fala o faz com o ritmo que tem dentro dele.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

multikulti

Multikulti, Interkulti e ainda Leitkulti. Alguns posts interessantes (incluindo comentários) no 2 Dedos de Conversa sobre o discurso onde Angela Merkel declarou o falhanço do Multiculturalismo alemão, que, como explica a Helena, se refere a sociedades onde várias culturas vivem lado a lado de costas voltadas. Mas, pergunta Henryk Broder na Spiegel, qual é o problema das sociedades paralelas que tanto incomodam Angela Merkel? É assim tão mau quando os imigrantes preferem estar entre os seus?

Resposta genial da Rita a Henrique Raposo que confunde as coisas.

Entretanto, o Presidente da Alemanha foi à Turquia dizer aos turcos que o Cristianismo também pertence àquele país (já antes tinha dito aos alemães que o Islão também pertence à Alemanha).

«In Germany, he said, Muslims were able to practice their religion, pointing to the growing number of mosques being built there. "At the same time, we expect that Christians in Muslim countries be given the same rights to practice their beliefs in public, to educate new religious leaders and to build churches." Wulff was alluding to the problems faced by Christians in Turkey, who make up less than 1 percent of the population of 70 million, but who nationalists often consider a threat to the country's unity»

Como o meu coração também é alemão, sinto-me orgulhosa deste Presidente que diz o que pensa e tem pensado bem.


domingo, 17 de outubro de 2010

harmonia chinesa

Um comité de historiadores e linguistas chineses encarregue de descobrir o caracter mais chinês da China chegou à conclusão que é o que significa harmonia, paz. O é a primeira sílaba de "sociedade harmoniosa" e de "levantamento pacífico", expressões impressas ad nauseum nos jornais e na propaganda do partido, mas aparece também na expressão Prémio Nobel da Paz, o que, ironicamente, o coloca na lista de palavras sujeitas a censura devido à sua atribuição a Liu Xiaobo. O partido único da China, que tanto promove o ideal social da paz e da harmonia tradicional chinesa (vem de Confúcio), e que tanto quer ser visto pelo resto do mundo como uma sociedade harmoniosa, embora não engane ninguém (como escreve Zizek no London Review of Books, o excesso no uso das expressões harmonia e paz aponta para uma realidade oposta, para a ameaça sempre iminente de caos e desordem.), vê-se assim nesta contradição: bombardear os chineses com paz e harmonia, que não é nada daquilo que estes vêm em seu redor, e ao mesmo tempo impedi-los de saber e discutir a atribuição de um prémio internacional ao que de mais chinês existe aos seus próprios olhos. Talvez seja por este motivo que o verbo harmonizar se tornou sinónimo de censurar e, justiça lhes seja feita, por detrás da Grande Firewall, nesse aspecto os chineses são todos iguais: qualquer um pode ser harmonizado, incluindo Wen Jiabao quando pede reformas políticas.



narrativa

Fala-me do Ruanda. Saudades da cozinha, das bananas e das papaias que nada têm a ver com os frutos que por cá conhecemos por esses nomes, mas que não são bananas nem papaias. Saudades dos cheiros, das paisagens, da escola católica, das brincadeiras de criança. Nesta narrativa não existe um genocídio que lhe esquartejou toda a família. Descreve-os todos, os mais velhos que eram meios-irmãos e primos simultaneamente, os mais novos com quem partilhou a mesma mãe e as roupas herdadas dos mais velhos. Nesta narrativa ainda vivem todos algures no centro de Kigali. O pai não acumulou riqueza para espólio de guerra de outrem. A mãe não pariu filho atrás de filho para a matança.


domingo, 10 de outubro de 2010

liu xiaobo




«I hope that I’m not the type of person who, standing at the doorways to hell, strikes an heroic pose and then starts frowning with indecision.»




«Rationality and order, calmness and moderation must be the rules of our struggle for democracy; hatred must be avoided at all costs. Popular resentment towards authoritarianism in China can never lead us to wisdom, only to an identical form of blind ignorance, for hatred corrupts wisdom. If our strategy in the struggle for democracy is to act like slaves rebelling against their master, assuming for ourselves a position of inequality, then we might as well give up right here and now.»

Citações retiradas de Confession, Redemption and Death: Liu Xiaobo and the Protest Movement of 1989, de Geremie Barmé.

nevoeiro

Por vezes zangávamo-nos num dia de chuva. Tu agarravas a gabardina e saías batendo a porta. Da janela seguia os teus passos pela avenida adivinhando o jardim que irias contornar para chegar à praça onde, ao centro, dois leões gigantescos abriam a boca para o céu. Espiava a tua ausência pela janela pensando que a vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava – pensava tantas coisas – em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que nunca mais voltaria? Que seria esperado numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que se espera alguém que não regressa?

Horas depois a tua silhueta reaparecia ao fundo da avenida. Ouvia o bater pacífico da porta da rua, os passos nas escadas, as chaves nas mãos que não chegavas a usar porque eu abria a porta antes de ti e tu sorrias e o teu sorriso esperava que te beijasse e te perdoasse e eu não te beijava nem te perdoava. A vida era demasiado complicada para se gastar a vida nela. Uma brutalidade. Pensava - pensava tantas coisas - em D. Sebastião. E se ele soubesse quando partiu do Tejo que voltaria numa manhã de nevoeiro? Há dia mais bonito que esse, em que já não se espera quem regressa?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

convite

A convite do Delito de Opinião escrevi um texto que foi hoje publicado. O Delito é um dos melhores blogues que conheço, não apenas pela qualidade da escrita e a diversidade de temas, mas também por ser um local onde nos sentimos sempre muito bem e onde os leitores são sempre bem recebidos. Agradeço ao Delito a hospitalidade.

Publico aqui também.

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Diana

Entrou por fim no casarão onde uma estátua da deusa Diana se debruçava do terraço sobre a rua. Anos antes, quando Diana ameaçara suicidar-se, prenderam-na com cordas de ferro ao chão poupando a vida do formigueiro da rua e a solidão dos cães azul-marinho que a ladeavam. Remendos de cimento foram aplicados no pedestal para conter o esboroamento das argamassas antigas, sujando-lhe a fímbria do vestido, e a fenda que o trepava foi interrompida por um abraço de ferro que depressa enferrujou na cintura estrangulada. O parapeito branco ao qual a estátua estava encostada, de frente para os telhados da cidade e de costas para a casa, parecia ceder sob a vertigem que sentia ao espreitar a rua. Benvinda aproximou-se dele para estudar o perfil de Diana. Logo recuou no terraço com o coração aflito.

Havia muitas crianças e adolescentes na casa, para além do irmão mais velho já adulto, explicara Teresa à Benvinda quando trepavam a imensa escadaria. A família de Teresa, grande à moda antiga, ocupava o rés-do-chão e os três andares. No último situava-se a cozinha e a sala de jantar ligadas por um corredor premiado com a luz de uma clarabóia imponente. A sala comunicava com o terraço separado desta por uma fila de janelas que preenchia toda a parede.

Quando recomeçou a chover Benvinda abandonou o terraço e regressou à sala. Os contornos de Diana esbatiam-se sob a chuva diluindo o seu desenho de mármore nas vidraças. A irmã, imediatamente a seguir à Teresa, fazia os trabalhos da escola esfarelando a borracha contra os cadernos que enchia de formigas brancas. Os livros expandiam-se pela mesa, entre eles a enciclopédia onde iriam procurar Diana. Sem vontade, mas não querendo que se notasse, Benvinda concordou com a ideia de fazerem pequenas bonecas com vestidos cónicos de cartolina e cabeças de pingue-pongue onde colariam fios de seda branca ornamentados com uma lua crescente feita com meio botão de madrepérola.

Recortou o lado direito da base do cone da sua deusa para simular um pé boto. Igual ao dela. Incomodava-a o interesse das amigas na deusa Diana, tão concentradas no adorno das bonecas, pintando o contorno dos olhos, pestanas oblíquas e lábios vermelhos nas bolas de pingue-pongue. Arcos e flechas de papel colados nos cones.

Pressentia ali uma ameaça. Os ícones de pau-preto que vieram de África embrulhados com ela em papel de jornal, que ela usava para as encher de terror e inventar rituais que deveriam cumprir para se protegerem, estavam a perder o seu poder. Já não estavam interessadas neles nem na aparição que ela inventara sobre um penedo, exigindo-lhes que comessem o chão. Era óbvio que já tinham esquecido o sabor da relva que evitava apocalipses. Substituíam-no por uma caçadora e agora o seu pé boto iria comer-lhe a carne pela perna acima e depois o tronco e os braços. Iria triturar a ossatura de passarinho, consumindo até os dentes, tomando por fim o seu lugar.

Por um momento pareceu-lhe que se precipitava sobre um parapeito que cedia. Carecia de um abraço de ferro que lhe estrangulasse a cintura, um tremeluzir no cabelo, uma argamassa de ternura.