quarta-feira, 1 de setembro de 2010

convidada

Computer Technique Group (CTG), Return to a Square, 1969

A chávena faz lembrar mulheres em saletas onde não faltaria uma natureza morta e uma mesa de pé de galo à roda da qual, talvez, depois do chá, se fizessem sessões espíritas, num ambiente doméstico característico dessa espécie de xamanismo. Mulheres à procura no mundo de lá de respostas a perguntas do mundo de cá, demandas do destino das coisas que não sendo da ciência dos vivos talvez fosse do conhecimento dos mortos. Almas rendilhadas que a médium teria engolido durante o transe, flutuariam pela penumbra da sala iludindo cientistas e a rainha do império onde o sol nunca se punha que também falava assim com o seu falecido príncipe Alberto.

As sessões a que a avó assistia não eram tão sofisticadas. Não se encenavam gestos dramáticos ao estilo de Florence Cook. Os espíritos arranhavam as cordas vocais daquela que fazia de canal de comunicação entre os vivos e os mortos, bastando à credulidade dos vivos as alterações da voz e as caretas que as acompanhavam. Foi assim que a avó ficou a saber por uma voz cavernosa e masculina que o tio Miranda tinha assassinado um preto na mesa de operações e que por causa dessa morte não tinha descanso no mundo entre o de cá e o de lá. Precisava de missas.

Em criança esforçava-se por encerrar o riso nos pulmões ao imaginar o rosto contorcido da médium a falar como um trombone e a avó, com uma cara séria, repreendia-a. Quando o riso era maior do que ela, sinal de falta de respeito, mostrava-lhe o crucifixo com o Cristo agonizante que gerações anteriores usaram para meter medo às crianças. Dizia, quando há boas razões nos dois lados de um argumento a forma mais correcta de proceder é parar de pensar e julgar pelas aparências e o tio Miranda tinha aparência de assassino, segundo a recordação que ela tinha dele, e um medo patológico do miasma que habitava os moribundos, causa dos tiques que lhe traduziam a excentricidade. Para além disso era ateu. Uma ironia que andasse a penar até se fazer de convidado, não para trazer notícias do outro mundo ou para dar o derradeiro juízo sobre o alho cru evitar ou não o cancro no estômago, mas para suplicar missas. Seria uma invenção da avó para dar um recado ao avô, também ele ateu? Talvez sim. Talvez não. A avó vivia espaventada pelo espírito da mãe que se divertia desenhando-se numa tábua do tecto, espiando-a na cama numa censura silenciosa que lhe destroçava os momentos de intimidade. Nessas noites fechava os olhos com força e via a cozinha da mãe numa tarde inundada pela luz do sol tardio que se esvaía em lava pela encosta do vulcão há muito falecido, no tempo em que a mãe se punha entre ela e o poente projectando-lhe nos olhos a sombra gigantesca de um corpo mindinho. Dizia-lhe que regressaria depois de morta, mas nunca lhe disse que o faria muda e que recusaria os convites enviados pelos canais apropriados, rebeldia aproveitada por outros mortos para aparecerem no lugar dela. Talvez a medium a fizesse falar se a levasse lá a casa, dizer ao que vinha, cumprir um qualquer ritual que lhe permitisse fechar a mãe numa caixinha minúscula e deitá-la ao rio, rumo ao paraíso talvez, mas mais certo ao inferno.

A médium admirou as flores azuis pintadas à mão na chávena da bisavó. Bebeu por ela o chá de ervas que trouxera consigo, voltou a enchê-la e ofereceu-a à avó. Quando o quarto entrou em centrifugação deitaram-se as duas na cama de olhos fixos na tábua, contando as órbitas gravadas nos nós de pinho escurecido.

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