“O povo tem que sofrer as crises como o Governo as sofre.” - Almeida Santos
Queria dizer qualquer coisa sobre isto, mas faltam-me as palavras.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
post-it
the girl effect
Assim abria este ensaio publicado no ano passado no New York Times, baseado no livro Half the Sky: Turning Oppression Into Opportunity for Women Worldwide, de Nicholas D. Kristof e Sheryl WuDunn.
Este século é sem dúvida o século das mulheres. Elas representam 70% do trabalho humano que suporta as famílias, as comunidades e a economia mas são também elas quem mais sofre a opressão e a descriminação que as exclui da educação e dos cuidados de saúde.
Estudo atrás de estudo relacionam o bem-estar das raparigas com o desenvolvimento económico e a melhoria das condições de vida nas suas comunidades. Elas aplicam melhor os seus salários (compram uma rede para proteger os filhos dos mosquitos que propagam a malária, por exemplo, em vez de gastarem esse dinheiro em bebidas alcoólicas ou tabaco), investem mais na educação dos seus filhos contribuindo, com o seu próprio esforço, para a redução da pobreza e para a sua emancipação.
Esta ideia, The Girl Effect, que já tinha corrido pela Internet através de um vídeo realizado há cerca de dois anos, está de volta com um novo vídeo. Uma oportunidade para relembrar um projecto que merece todo o nosso apoio. Por elas, por nós, pelos nossos filhos, pelas nossas filhas.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
a tradição é aquela parte do passado que é sempre presente

Oktoberfest 1928
Oktoberfest 2009
(imagens da galeria A Brief History of Oktoberfest na revista Time)
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
na palma da mão
Proibir alguma coisa, deportar milhares de pessoas (que daqui a nada estarão de volta), retirar a nacionalidade francesa a quem viver em poligamia, debates sobre identidade…
Somos muito pouco exigentes com os nossos governantes. Não exigimos medidas que resolvam os nossos problemas, exigimos vingança e mão pesada sobre os que se assemelham ao inimigo, ao gajo que nos roubou o portátil. Talvez outra coisa não fosse de esperar de uma cultura que se informa nos tablóides, se aconselha nos horóscopos e nas médiums, se distrai com telenovelas, desvaloriza a educação e o conhecimento e transforma as suas escolas e universidades em linhas de produção para o desemprego.
Achamos mais provável os islamistas converterem as mulheres europeias do que a Europa converter as mulheres dos islamistas. Partilhamos o pesadelo de Sarazzin de uma Europa cheia de meninas com um lenço na cabeça que acreditamos estar a um passo das pedras, mas recusamos associar-nos a iniciativas contra a lapidação, porque é imperialista, porque é a cultura deles oprimir as mulheres, porque não muda nada. A cultura europeia deixou de acreditar em si própria e agora o país que nos deu a liberdade, a fraternidade e a igualdade deporta ciganos, cidadãos da União Europeia, eternamente remetidos à categoria de Morlocks da Europa.
Estamos tão longe de realizar o nosso potencial como indivíduos capazes de construir um destino comum que seja de facto livre, fraterno e igual para todos. Talvez nunca chegaremos lá. Talvez uma cigana o tenha lido na palma da mão.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
convidada
As sessões a que a avó assistia não eram tão sofisticadas. Não se encenavam gestos dramáticos ao estilo de Florence Cook. Os espíritos arranhavam as cordas vocais daquela que fazia de canal de comunicação entre os vivos e os mortos, bastando à credulidade dos vivos as alterações da voz e as caretas que as acompanhavam. Foi assim que a avó ficou a saber por uma voz cavernosa e masculina que o tio Miranda tinha assassinado um preto na mesa de operações e que por causa dessa morte não tinha descanso no mundo entre o de cá e o de lá. Precisava de missas.
Em criança esforçava-se por encerrar o riso nos pulmões ao imaginar o rosto contorcido da médium a falar como um trombone e a avó, com uma cara séria, repreendia-a. Quando o riso era maior do que ela, sinal de falta de respeito, mostrava-lhe o crucifixo com o Cristo agonizante que gerações anteriores usaram para meter medo às crianças. Dizia, quando há boas razões nos dois lados de um argumento a forma mais correcta de proceder é parar de pensar e julgar pelas aparências e o tio Miranda tinha aparência de assassino, segundo a recordação que ela tinha dele, e um medo patológico do miasma que habitava os moribundos, causa dos tiques que lhe traduziam a excentricidade. Para além disso era ateu. Uma ironia que andasse a penar até se fazer de convidado, não para trazer notícias do outro mundo ou para dar o derradeiro juízo sobre o alho cru evitar ou não o cancro no estômago, mas para suplicar missas. Seria uma invenção da avó para dar um recado ao avô, também ele ateu? Talvez sim. Talvez não. A avó vivia espaventada pelo espírito da mãe que se divertia desenhando-se numa tábua do tecto, espiando-a na cama numa censura silenciosa que lhe destroçava os momentos de intimidade. Nessas noites fechava os olhos com força e via a cozinha da mãe numa tarde inundada pela luz do sol tardio que se esvaía em lava pela encosta do vulcão há muito falecido, no tempo em que a mãe se punha entre ela e o poente projectando-lhe nos olhos a sombra gigantesca de um corpo mindinho. Dizia-lhe que regressaria depois de morta, mas nunca lhe disse que o faria muda e que recusaria os convites enviados pelos canais apropriados, rebeldia aproveitada por outros mortos para aparecerem no lugar dela. Talvez a medium a fizesse falar se a levasse lá a casa, dizer ao que vinha, cumprir um qualquer ritual que lhe permitisse fechar a mãe numa caixinha minúscula e deitá-la ao rio, rumo ao paraíso talvez, mas mais certo ao inferno.
A médium admirou as flores azuis pintadas à mão na chávena da bisavó. Bebeu por ela o chá de ervas que trouxera consigo, voltou a enchê-la e ofereceu-a à avó. Quando o quarto entrou em centrifugação deitaram-se as duas na cama de olhos fixos na tábua, contando as órbitas gravadas nos nós de pinho escurecido.

