quinta-feira, 10 de junho de 2010

desfile

Uma vez, quando eu era pequenina, vestiram-me de anjinho e puseram-me em cima de uma camioneta, ao lado doutros anjinhos vestidos com uma túnica de cetim branco até aos pés, uma corda a fazer de cinto e duas asas penduradas nas costas. Despacharam-nos para uma vila do concelho para desfilarmos na procissão num dia insuportavelmente quente que nunca mais acabava. O carro dos anjinhos tinha escadas forradas a azul que subiam em forma de pirâmide, para simular a hierarquia dos anjos, talvez. Logicamente eu estava no patamar de baixo.

A coreografia era simples: numas ruas podíamos descansar e sentarmo-nos nos degraus e noutras tínhamos de nos levantar e cantar uma coisa qualquer de louvor ao Senhor. Entrámos na rua que desembocava na praça central, onde deveríamos entoar o hino principal, e uma coisa extraordinária aconteceu.

Com o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no joelho, observava as pessoas que nos observavam, única fonte de entretenimento num dia dolorosamente aborrecido, quando comecei a perder a audição. Não foi súbita a perda, os sons foram morrendo devagarinho, tão suavemente que eu não dei por ela. Já não ouvindo nada mas vendo tudo, ia construindo estórias na minha cabeça com aquelas personagens que pareciam desfilar para mim, sem fazer caso dos outros anjos a quem voltei as costas para me debruçar sobre a rua. As pessoas levantavam os braços e mexiam os lábios e conforme o cortejo se movia, os braços e os lábios iam tornando-se cada vez mais expressivos, cada vez mais altos e mais abertos, as fronhas cada vez mais carregadas. Algumas mãos começaram a diminuir para um dedo indicador, alguns braços esticavam-se na nossa direcção e começou a tornar-se evidente que o que os lábios gritavam era para nós. Mais ainda, logo percebi, para mim. Que queriam eles comigo e porque é que eu os enervava tanto? Estava surda, não percebia.

Nisto, um anjo do patamar de cima puxou-me por uma asa enquanto o do lado me puxava pela corda e eu, sem saber bem se deveria ir atrás da asa ou da corda, pensei em saltar da camioneta mas a audiência não era nada convidativa. Como em caso de dúvida o lado mais forte tem sempre razão, fui para o lado da gorda que me puxava pela corda. Este anjinho papudo estava de pé e, como pude então verificar, os outros também, escada acima até ao paraíso. Caí por cima dela que por sua vez caiu sobre a seguinte e o anjo de cima, que segurava ainda a minha asa, sentindo que perdia o equilíbrio mas não querendo largar a aselha, agarrou-se ao cetim da que estava acima dela.

Rasgou-se a asa e o cetim e esse estrondo abriu-me os tímpanos. Lentamente os sons começaram a fazer sentido. “Põe-te de pé!”, gritavam uns, “Canta!”, gritavam outros e foi então que percebi tudo. Surda, não reparei que tinha de me levantar e cantar. Estraguei a composição angélica e dei cabo do paraíso. Não era de admirar que estivessem tão zangados comigo, o público e os outros anjos. Ninguém gostava de um anjo dissidente a remar contra a maré.