sexta-feira, 18 de junho de 2010

morreu abraçado às palavras


«O que para outros ainda lhes poderá parecer novidade, tornou-se para mim, com o decorrer do tempo, em caldo requentado. Ou pior, amarga-me a boca a certeza de que umas quantas coisas sensatas que tenha dito durante a vida não terão, no fim de contas, nenhuma importância. E porque haveriam de tê-la? Que significado terá o zumbido das abelhas no interior da colmeia? Serve-lhes para se comunicarem umas com as outras? Ou é um simples efeito da natureza, a mera consequência de estar vivo, sem prévia consciência nem intenção, como uma macieira dá maçãs sem ter que preocupar-se se alguém virá ou não comê-las? E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. A lição é boa. Abraço-me pois às palavras que escrevi, desejo-lhes longa vida e recomeço a escrita no ponto em que tinha parado. Não há outra resposta.» - José Saramago, Outros Cadernos de Saramago

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Coitado do Bagão Félix


Uma espécie de movimento Mães de Lisboa quer transformar Bagão Félix no salvador dos valores familiares católicos que o PR supostamente ajudou a enterrar. Cem Isildas desiludidas com Cavaco Silva não conseguem encontrar entre elas alguém que se candidate - nenhuma, nem uma Sarah Palin - porque "não existem em Portugal muitas pessoas com a capacidade de representar um povo maioritariamente católico". Isto diz quase tudo sobre este movimento ou plataforma ou lá o que é.

(A fotografia escolhida pelo Público (em cima) e que acompanha a notícia é um achado)

cozinha

Resolvi tirar tudo dos armários da cozinha. Comecei pelos de baixo, depois os de cima. De seguida esvaziei o frigorífico. Transferi os congelados para a arca e deixei derreter o gelo acumulado nas gavetas. Limpei tudo por dentro e por fora, livrei-me de objectos e utensílios esquecidos que já não uso, subi e desci o pequeno escadote mil vezes e andei de gatas no chão esfregando portas e rodapés. Mudei o lugar das coisas.

O mundo pode estar a fugir-nos sob os pés mas quando chegar a vez da minha cozinha irá resplandecente pelo cano abaixo.

sábado, 12 de junho de 2010

Sheila Rowbotham sobre Godard


His idea was to film me with nothing on reciting words of emancipation as I walked up and down a flight of stairs - the supposition being that eventually the voice would override the images of the body. This made me uneasy for two reasons. I was a 36C and considered my breasts too floppy for the sixties fashion. Being photographed lying down with nothing on was fine, but walking downstairs could be embarrassing. Moreover, while I didn't think nudity was a problem in itself, the early women's groups were against what we called 'objectification'...Why on earth did the pesky male mind jump so quickly from talk of liberation to nudity, I wondered...

Godard came out to Hackney to convince me. He sat on the sandied floor of my bedroom, a slight man, his body coiled in persuasive knots. Neither Godard the man nor Godard the mythical creator of Breathless were easy to contend with. I perched in discomfort on the end of my bed and announced 'I think if there's a woman with nothing on appearing on the screen no one's going to listen to the words', suggesting perhaps he could film our 'This Exploits Women' stickers on the tube. Godard gave me a baleful look, his lip curled. 'Don't you think I am able to make a c*** boring?', he exclaimed. We were looked in a conflict over a fleeting ethnographic moment.

In the end a compromise was settled. The Electric Cinema had recently opened in Notting Hill and needed money. A young women (with small breasts) from there agreed to walk up and down the stairs and I did the voice over. When British Sounds was shown in France...the audience cheered as I declared 'They tell us what we are...One is simply not conscious of "men" writers, of "men" film makers. They are just "writers", just "film-makers". The reflected image for women they create will be taken straight by women themselves. These characters "are" women.' As for Godard's intention of making a c*** boring, I cannot say except that a friend in International Socialism told me that his first thought had been 'crumpet' - until the shot went on and on and on, and he started to listen.'


- Sheila Rowbotham, Promise of a Dream: Remembering the Sixties

sexta-feira, 11 de junho de 2010

gelb


Peter Nencini, Gelb


"Gelb is a growing image kit, a kind of ode to Berlin."

Nigella Lawson

Não haverá uma espécie de condecoração feminista para honrar as pessoas que sem querer fazem muito pela igualdade? Se há, acho que deveria ser entregue à Nigella Lawson, a mulher que finalmente está a pôr o macho latino na cozinha.

(acho-a fantástica, ela percebe mesmo daquilo)

sondagens

Nunca entendi muito bem as sondagens. Como é que perguntas feitas a 100, 500 ou mesmo 1000 pessoas podem representar a totalidade do país? E porque é que nunca ninguém me sondou? Nem conheço alguém que tenha sido sondado. Suspeito que as sondagens são feitas sempre às mesmas pessoas, uma espécie de sociedade secreta que tem por objectivo pôr o país a pensar como pensa a percentagem maior do resultado.

Inquietações dum rapaz de 16 anos.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

reflexões do 10 de Junho



«Esta anacrónica mania portuguesa de fazer substituir os duques, marqueses e viscondes de antanho pelos “doutores” e “engenheiros” de agora, muitos deles aliás sem terem qualificações académicas para merecerem ser tratados desta forma, devia terminar – com a Assembleia da República a dar o exemplo. »

- Pedro Correia no Delito de Opinião

«tivessem escolhido outro dos 365 dias que o ano tem para uma exaltação deste tipo. Porque, para quem já era suficientemente crescido no 25 de Abril, soldados e condecorações em 10 de Junho estarão para sempre associados a uma guerra muito concreta. »

- Joana Lopes no Brumas


Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

- Luís de Camões

What’s your road, man? — holyboy road, madman road, rainbow road, guppy road,
any road. It’s an anywhere road for anybody anyhow


- Jack Kerouac

outros desfiles

O desfile dos meninos de Aveiro decorreu como qualquer pessoa de bom senso sabia que iria decorrer. Podemos voltar ao Mundial dos clichés e das vuvuzelas que não vai ser preciso salvar os meninos dos “fascistas” dos professores.

kitchenalia



de Emily Maude

desfile

Uma vez, quando eu era pequenina, vestiram-me de anjinho e puseram-me em cima de uma camioneta, ao lado doutros anjinhos vestidos com uma túnica de cetim branco até aos pés, uma corda a fazer de cinto e duas asas penduradas nas costas. Despacharam-nos para uma vila do concelho para desfilarmos na procissão num dia insuportavelmente quente que nunca mais acabava. O carro dos anjinhos tinha escadas forradas a azul que subiam em forma de pirâmide, para simular a hierarquia dos anjos, talvez. Logicamente eu estava no patamar de baixo.

A coreografia era simples: numas ruas podíamos descansar e sentarmo-nos nos degraus e noutras tínhamos de nos levantar e cantar uma coisa qualquer de louvor ao Senhor. Entrámos na rua que desembocava na praça central, onde deveríamos entoar o hino principal, e uma coisa extraordinária aconteceu.

Com o queixo apoiado na mão e o braço apoiado no joelho, observava as pessoas que nos observavam, única fonte de entretenimento num dia dolorosamente aborrecido, quando comecei a perder a audição. Não foi súbita a perda, os sons foram morrendo devagarinho, tão suavemente que eu não dei por ela. Já não ouvindo nada mas vendo tudo, ia construindo estórias na minha cabeça com aquelas personagens que pareciam desfilar para mim, sem fazer caso dos outros anjos a quem voltei as costas para me debruçar sobre a rua. As pessoas levantavam os braços e mexiam os lábios e conforme o cortejo se movia, os braços e os lábios iam tornando-se cada vez mais expressivos, cada vez mais altos e mais abertos, as fronhas cada vez mais carregadas. Algumas mãos começaram a diminuir para um dedo indicador, alguns braços esticavam-se na nossa direcção e começou a tornar-se evidente que o que os lábios gritavam era para nós. Mais ainda, logo percebi, para mim. Que queriam eles comigo e porque é que eu os enervava tanto? Estava surda, não percebia.

Nisto, um anjo do patamar de cima puxou-me por uma asa enquanto o do lado me puxava pela corda e eu, sem saber bem se deveria ir atrás da asa ou da corda, pensei em saltar da camioneta mas a audiência não era nada convidativa. Como em caso de dúvida o lado mais forte tem sempre razão, fui para o lado da gorda que me puxava pela corda. Este anjinho papudo estava de pé e, como pude então verificar, os outros também, escada acima até ao paraíso. Caí por cima dela que por sua vez caiu sobre a seguinte e o anjo de cima, que segurava ainda a minha asa, sentindo que perdia o equilíbrio mas não querendo largar a aselha, agarrou-se ao cetim da que estava acima dela.

Rasgou-se a asa e o cetim e esse estrondo abriu-me os tímpanos. Lentamente os sons começaram a fazer sentido. “Põe-te de pé!”, gritavam uns, “Canta!”, gritavam outros e foi então que percebi tudo. Surda, não reparei que tinha de me levantar e cantar. Estraguei a composição angélica e dei cabo do paraíso. Não era de admirar que estivessem tão zangados comigo, o público e os outros anjos. Ninguém gostava de um anjo dissidente a remar contra a maré.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

o meu guardião sabe o que é melhor para mim

Mulheres que rejeitam a igualdade na Arábia Saudita.

O melhor parágrafo é este:

«Ms. Yousef, whose guardian is her elder brother, said that she enjoyed a great deal of freedom while respecting the rules of her society. Guardian rules are such that she could start her campaign, for instance, without seeking her guardian’s permission.»

I wonder why...

A activista Wajeha al-Huwaider tem tanta liberdade que foi impedida de sair do país apenas com o seu passaporte. Faltava o guardião.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

anti-semita

Um diálogo típico da blogosfera:

- O bloqueio a Gaza é ilegal e o assalto ao barco turco em águas internacionais também o é.
- Anti-semita!
Aqui, o "anti-semita" deve desatar num pranto e retirar-se do debate.

Com todas as comparações a anti-semitas, os jovens ainda começam a pensar que os aliados derrotaram a Alemanha nazi porque Hitler dava muita importância à lei internacional.