segunda-feira, 31 de maio de 2010

dezasseis

Uma taça com cerejas no regaço e uma gata confusa que se lambe e lambe um dedo do meu pé julgando ser parte do corpo dela. Em Maio come a velha as cerejas ao borralho. Eu, mais para velha do que para nova, engulo cereja atrás de cereja coleccionando caroços sob o borralho a poente. O meu filho faz dezasseis anos e já vou em dezasseis caroços. É demasiado grande para o enroscar inteiro nos meus braços – tenho de o abraçar aos bocadinhos, as mãos, depois o tronco, a cabeça - e tudo o que eu queria era que as cerejas saíssem inteiras da minha boca e se reunissem aos caroços, que voltassem à árvore e diminuíssem na flor. Depois começaria tudo de novo, o prazer de o fazer, a dor de o ter e mais uma vez, enroscá-lo inteirinho no meu regaço, todo de uma vez.

9 comentários:

Helena disse...

Lindo.

E curioso: a minha filha também cabou de fazer 16 anos. Quando fez 7, tive um sobressalto semelhante. Fiz o tradicional bolo de chocolate a chorar...
Depois habituei-me. Não voltará ao meu regaço como quando era pequenina. Em compensação, aprende a fazer o seu caminho com passos seguros, apesar dos meus braços que insistem em querer amparar.

CCF disse...

Pois, a minha vai nos 14...mas enrosco-a à mesma, ainda que seja maior que eu.
Muito bonito o que escreveste.
~CC~

maria n. disse...

Parabéns para ela, Helena :-) Aqui também é sempre bolo de chocolate, o único bolo de que gosta.

O tempo passa tão rápido, ainda ontem nasceram. O meu também caminha com passos seguros, embora me aflija às vezes com as suas inquietações.

CC, o mais novo, que tem 12 e é uma espécie de Houdini (consegue encolher-se tanto que facilmente se esconde em qualquer buraco ou caixote) ainda consigo enroscá-lo todo. O mais velho só mesmo aos bocadinhos.

Helena disse...

:-)
Agora deu-me mesmo vontade de rir: se eu dissesse em público que consigo ainda enroscar todo o meu de 13, ele morria de vergonha.
Ficava capaz de me atirar à cara uma daquelas aranhas da Bourgeois.
Vocês ainda não chegaram à fase de dar um beijinho de despedida no carro dois semáforos antes do cruzamento da escola?
;-)

maria n. disse...

Sim, sim, Helena. Já cheguei a essa fase e o mais velho nem quer que o deixe à porta da escola. Sai do carro na esquina. Não gostam de beijos e abraços quando estão perto dos colegas, mas em casa é outra história, claro.
Deve ser uma coisa de macho. Homens a sério não andam atrelados às mães e como eles já são homens... :-)

Helena disse...

Uma vez, na saída para uma viagem de turma, os pais estavam a despedir-se dos filhos (com um discreto "então adeus, diverte-te") quando um dos rapazes deu um grande abraço à mãe. À frente dos outros todos.
Ninguém se riu, nem o mundo acabou, nem nada. Mas depois do autocarro partir, juntaram-se todos os pais à volta daquela mãe a perguntar-lhe qual era o truque.
E comentaram mais tarde da inveja que tinham sentido nesse momento.

Mas os pais são "resilient", sobrevivem a isto e a muito mais!
:-)

maria n. disse...

"nem o mundo acabou, nem nada"

Pois não acaba mesmo eheheheh
Um dia eles vão perceber isso.

blue disse...

pois eu então sou uma rapariga de sorte: o meu tem quase 19, quase não poderia ser mais independente do que é, mas agarra-me a mão e põe o seu braço sobre os meus ombros a cabeça contra a minha e abraça-me. é verdade que é só quando está por perto e agora já não são muitas as vezes...

maria n. disse...

Pois és, Cláudia :-) e que bom é ver-te por aqui.
Um abraço, grande.