Uma taça com cerejas no regaço e uma gata confusa que se lambe e lambe um dedo do meu pé julgando ser parte do corpo dela. Em Maio come a velha as cerejas ao borralho. Eu, mais para velha do que para nova, engulo cereja atrás de cereja coleccionando caroços sob o borralho a poente. O meu filho faz dezasseis anos e já vou em dezasseis caroços. É demasiado grande para o enroscar inteiro nos meus braços – tenho de o abraçar aos bocadinhos, as mãos, depois o tronco, a cabeça - e tudo o que eu queria era que as cerejas saíssem inteiras da minha boca e se reunissem aos caroços, que voltassem à árvore e diminuíssem na flor. Depois começaria tudo de novo, o prazer de o fazer, a dor de o ter e mais uma vez, enroscá-lo inteirinho no meu regaço, todo de uma vez.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
sábado, 29 de maio de 2010
quinta-feira, 20 de maio de 2010
burca à la française
Depois da Bélgica, a França prepara-se para proibir globalmente o véu integral apesar do parecer negativo do Conselho de Estado segundo o qual a lei viola a Constituição Francesa. A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa também se manifestou contra a proibição global do véu integral.
A proibição permite às pessoas sentirem que estão a fazer qualquer coisa de bom pelas mulheres e pela igualdade, mas a lei em nada vai melhorar a situação das que são de facto sujeitas à violação dos seus direitos (e não é o caso de todas as que usam o véu integral). Oferece ao estado uma saída face ao extremismo que vai ganhando terreno nos guetos onde despeja os imigrantes e os ignora, saída essa que poderá servir de álibi para não se empenhar a fundo no terreno na construção de um relacionamento igualitário entre homens e mulheres. Ao retirar o que na nossa cultura é um símbolo da opressão feminina da rua, cria a ilusão de uma sociedade igualitária - o que não se vê não existe. É como proibir os grilhões e esperar que isso acabe com a escravatura.
Kiana Firouz
Apesar de não existir homossexualidade no Irão, segundo Ahmadinejad, as autoridades contam com o apoio do mundo livre na perseguição aos homossexuais iranianos que vivem fora do país. O crime de Kiana não é apenas o de ser lésbica mas também o de se atrever a participar num filme, baseado na sua vida e na perseguição de que são vítimas os homossexuais no seu país, crítico do regime. O Irão que tem tentado a deportação de Kiana do Reino Unido desde a publicação do trailer no YouTube, ao que tudo indica terá a sua vontade satisfeita. O Home Office recusou o pedido de asilo da actriz iraniana porque acredita que nada lhe acontecerá no Irão se ela ocultar a sua homossexualidade.
sexta-feira, 14 de maio de 2010
falamos pouco disto
Julgo que nem reparamos nisto, mas talvez devêssemos reparar. O Papa veio e foi-se. Houve debate, houve missa, houve quem se chateasse com os incómodos do trânsito, católicos contra a tolerância de ponto, ateus que fizeram circular formulários para a desvinculação da igreja católica, houve preservativos e fiéis que recolheram um número suficiente para fazer candeeiros, salamaleques de políticos, a costumeira referência ao aborto e casamento gay, e até houve uma dose de Fátima Campos Ferreira superior à que qualquer ser humano pode suportar, para além do Padre Borba que vê sempre o lado positivo das coisas, até no assassinato do Papa, mas demos muito descanso às forças de segurança cujas operações foram observadas pela polícia britânica com horror. Então não é que deixamos Bento XVI pertinho do povo à distância de um ovo? E ninguém lhe atirou nenhum.
basqueiro
Nada disto é novidade. De longe a longe (felizmente na minha aldeia não acontece muitas vezes) sou bombardeada com as Avé-Marias estridentes que os altifalantes da igreja fazem atravessar o planalto sem que ninguém me tenha alguma vez perguntado se concordo ou não com a poluição que me entra pelas janelas. Nunca me queixei. Não fiz abaixo-assinados nem andei a moer o juízo do Presidente da Junta. O povo daqui é assim. Vive e deixa viver. O Berto, que para ter música no trabalho punha as colunas da aparelhagem na janela quando ia para o campo, foi finalmente integrado no silêncio. Em vez de lhe fazer guerra oferecemos-lhe um MP3, o que resolveu o problema da música pimba matinal sem que ninguém se zangasse.
Isto para dizer que nós, os nortenhos, fazemos muito basqueiro e gostamos pouco que nos mandem calar. É verdade isto do barulho, como se pode ver comparando as imagens do Terreiro do Paço e as da Avenida dos Aliados antes de Bento XVI lá chegar e que eu vi na televisão da igreja de todos nós.
ovelhas
Anda tanto crente preocupado com a contestação que é feita à igreja, ao catolicismo e às religiões em geral, como se a religião estivesse em vias de extinção e fosse necessário preservá-la a todo o custo como se faz com algumas espécies. A religião, se é para ter algum significado na sociedade, tem de ser desafiada, debatida e posta em dúvida. Isto é de difícil compreensão para muitos crentes, acomodados nas certezas que assumiram por doutrinação e pela ausência de espírito crítico que a má educação escolar de que tomos fomos (e continuamos a ser) vítimas, não soube desenvolver. Uma igreja de gente fechada à crítica e à dúvida não está mais perto da verdade.