quinta-feira, 8 de abril de 2010

selecção

«I loathed the game, and since I could see no pleasure or usefulness in it, it was very difficult for me to show courage at it. Football, it seemed to me, is not really played for the pleasure of kicking a ball about, but is a species of fighting.» – George Orwell

Gritava o povo da aldeia sentado em círculos junto ao rádio e eu, entretida com as primas sem fazer caso do relato, abandonava o jogo das pedrinhas no passeio e observava os homens que pediam decilitros a brincar como crianças e os rapazes com bigodes tintos a brincar aos adultos, autorizados que eram a aspirar um golo de vinho das malgas muito brancas da Rosinha e a fumar um Kentucky para acalmar o nervoso miudinho. Gritavam pelo Eusébio, a pessoa mais importante de Portugal, como se as ondas que o traziam também os levassem.

Lembro-me – não sei se ainda é assim – que se inscrevia um filho num clube mal se sabia o sexo dele entregando o nado vivo ao futebol antes de se o entregar a Deus. Por baixo da roupa de anjinho do baptismo o rapaz já levava as cores do clube e a par do catecismo o dicionário de palavrões e insultos indispensáveis à sua educação futebolística.

As raparigas eram poupadas à mania nacional – o ritual de nascimento delas consistia em furar-lhes as orelhas onde mais tarde se pendurariam as filigranas das avós – mas vibravam com a selecção, ainda que dando como certa a derrota final o que acontecia sempre. Sempre. Depois de confirmada a humilhação encolhiam-se os ombros; que havemos de fazer, o árbitro fez batota e um et cetera et cetera que se prolongava por vários dias. Daí a nada eu voltava às pedrinhas com as primas da aldeia e os rapazes à bola na rua, fintando nos pés que prometiam dar ao país um exército de Eusébios a certeza no falhanço eterno.

O primeiro e último contacto que as crianças têm com o patriotismo é o futebol. Começa-se por amar a família, mesmo quando ela não presta, depois a rua, depois o bairro e a freguesia a que se segue a vila ou a cidade. Quando chega a vez da província já o coração foi entregue à selecção. O país nunca se chega a amar excepto quando se imigra e mesmo longe não é bem o país que nos falta, mas sim o braço acolhedor do berço, os chouriços caseiros pendurados no fumeiro, a broa acabada de cozer embrulhada em folha de couve, os decilitros da ramada própria, as histórias dos velhotes à fogueira e a as ruas antigas sob a luz das cidades ao entardecer.

Com a aprendizagem do abecedário decoram-se os rudimentos das nossas origens como país e o significado dos seus símbolos. Milhares de crianças aprendem os feitos da espada de D. Afonso Henriques, cantam o hino dizendo igrejos em vez de egrégios e decoram o rosto do Presidente da República. Tenta-se convencer a canalha de que há muito que nos une, como se um algarvio tivesse mais a ver com um minhoto do que este com um galego, como se os bês do Norte fossem iguais aos bês do Sul, mas tirem os símbolos ao povo e nada resta que nos una.

Em Valença do Minho troca-se de bandeira e pensamos logo na selecção – e agora, vão de bandeira espanhola para a África do Sul? A selecção é o único sítio onde as nossas diferenças e o muito que nos desune desaparecem, onde até as mulheres são bonitas de bigode. É uma espécie de luta por um nós que nunca somos. Nada tem a ver com pés, pernas e bola e o fora de jogo que eu nunca hei-de entender por falta de esforço e de vontade. Há mistérios que prefiro que não deixem de o ser.

3 comentários:

Joana Lopes disse...

Que belo post, Maria

maria n. disse...

Obrigada, Joana.

Anónimo disse...

Também gostei.