quinta-feira, 18 de março de 2010

a forma como as coisas são e como poderiam ser

Tony Judt numa entrevista publicada na London Review of Books - The Way Things Are and How They Might Be - que vale a pena ler na totalidade porque é muito interessante, da qual traduzi este excerto sobre a linguagem (método Speedy Gonzalez como diz a Helena):

«Na América a má utilização da linguagem é mais cultural do que política. As pessoas acusam Obama de ser socialista. No entanto, ninguém leva isso muito a sério (…) Descreve-se toda a gente como tendo as mesmas oportunidades quando na realidade alguns têm mais oportunidades do que outros. E com esta linguagem enganadora de igualdade é muito mais fácil permitir que a desigualdade profunda aconteça.

Na Grã-Bretanha o abuso mais marcante da linguagem é a redefinição de privado, actividades económicas com fins lucrativos como serviços prestados pelo Estado. Um exemplo concreto é a forma como foi dado aos empresários privados o direito de gerir os lares de idosos. No entanto, ninguém quer soletrar isto dessa forma pelo que são descritos como 'fornecendo' um serviço, como se eles fossem o leiteiro que entrega o leite aos idosos. Impede as pessoas de compreenderem totalmente que o Estado entregou o seu mandato de responsabilidade a um agente privado cuja motivação é a de prestar o serviço mais barato possível e obter o maior lucro.

Na França acontece outra coisa, uma espécie de reformulação abusiva do republicanismo. O antigo ideal francês de republicanismo igualitário sem distinções, sem compromissos com a religião ou localismo, onde todos têm as mesmas oportunidades, falam a mesma língua, vivem na mesma França – um ideal inventado no fim do século XVIII como forma de fazer uma ruptura radical com o Ancient Régime – é agora usado para encobrir as desvantagens dos jovens, particularmente se são pretos ou morenos, dos subúrbios ou do Norte de África. A velha linguagem igualitária tem sido transfigurada ao dizer que todos temos as mesmas oportunidades, somos todos iguais, não falaremos do facto de seres mulher e morena, ou dar-te permissão para te vestires de forma diferente porque isso não seria republicano. Este subterfúgio permite um comportamento muito iliberal em nome de um “ideal liberal”.
(…)
Penso que precisamos é de um retorno à crença não na liberdade, porque isso é facilmente convertido noutra coisa, como vimos, mas na igualdade. Igualdade que não é a mesma coisa que mesmice. Igualdade de acesso à informação, igualdade de acesso ao conhecimento, igualdade de acesso à educação, igualdade de acesso ao poder e à política. Deveríamos estar mais preocupados do que estamos com as desigualdades de oportunidade, seja entre os jovens e os velhos ou entre aqueles com habilidades diferentes ou de diferentes regiões de um país. É outra maneira de falar de injustiça. Precisamos de redescobrir uma linguagem de dissidência. Não pode ser uma linguagem económica porque parte do problema é andarmos há demasiado tempo a falar sobre política numa linguagem económica onde tudo tem sido sobre crescimento, eficiência, produtividade e riqueza, e não suficientemente sobre ideais colectivos em torno dos quais nos podemos unir, em torno dos quais podemos zangar-nos juntos, em torno dos quais podemos ser colectivamente motivados, seja na questão da justiça, desigualdade, crueldade ou comportamento antiético. Livrámo-nos da linguagem com a qual o poderíamos fazer. E até redescobrirmos essa linguagem como seria possível vincularmo-nos? Não nos podemos reunir com base nas ideias do século XIX ou XX do progresso inevitável ou a progressão histórica natural do capitalismo para o socialismo ou o que quer que seja. Já não podemos acreditar nisso. E de qualquer maneira não pode fazer o trabalho por nós. Precisamos de redescobrir a nossa própria linguagem da política.»

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