sábado, 20 de março de 2010

pés de asfalto

Agora, olho pela janela e vejo a pequena igreja do outro lado do planalto. A igreja tem apenas um sacerdote porque esta é uma pequena aldeia perdida no interior de Portugal que os bispos e a gente importante nunca visitam. O sacerdote é jovem e bonito. Conheci-o uma noite quando ele e um grupo de aldeões me bateram à porta e perguntaram se podiam cantar as Janeiras. Eu disse que sim em sintonia com a tradição. Encheram-me o alpendre de vozes perfeitas e o meu filho fez um filme. Comemos doces de Natal e bebemos vinho do Porto. Havia moças bonitas no grupo, escuteiras de faces rosadas e cabelos da cor do Minho, riso e sensualidade da lua. Havia moços troncos de árvore e olhos claros. Nessa noite conheci também o enfermeiro que vive na casa de pau do outro lado da estrada. Adivinhei a inteligência do padre por trás dos óculos anos cinquenta e não acreditei, um momento só, que se dedicasse ao celibato porque se assim fosse seria um esbanjamento. Via-se logo que foi feito para amar, mulheres ou homens, pelo corpo.

Agora, dizem que a autoridade moral da igreja se perdeu para sempre à conta dos escândalos, do encobrimento e da hipocrisia. Não percebem nada de nada. A igreja nunca teve autoridade moral. O padre bonito tem a chave da igreja e a sua autoridade está na chave. É na igreja que se guardam os santos que o povo beatificou e a Virgem Maria. São esses quem o povo reverencia. Os santos fazem os milagres – Deus, como todas as inteligências superiores, não pode ser incomodado com as trivialidades do povo pequeno – e a Virgem é a mãe deles cujo sofrimento compreendem melhor do que o de Jesus. O papa é o invólucro de Deus. Não se preocupam com o seu intelecto, não compreendem as suas palavras. Dirigem-se em rebanho a Fátima quando vem a banhos de multidões, esfolando joelhos e coleccionando pés de asfalto. Acenam-lhe com lenços brancos. Acena-lhes de volta com uma mão velha. Prega a moral católica do contraceptivo e do aborto a mulheres que engoliram a pílula nessa manhã para regular úteros que carregam cicatrizes de abortos realizados sob telhados de lata. O povo faz o que tem de fazer. Ninguém manda nele.

Amanhã, continuará a precisar de quem lhes guarde a mãe, os santos e os mortos.

6 comentários:

CCF disse...

Belo e profundo texto!
~CC~

Tata Marques disse...

Conhece os Irmãos Karamazov do Dostoiévski? Gostei do seu texto, e fez lembrar o Grande Inquisidor que é um capítulo do livro que te pergunto: conhece?

Tata Marques disse...

Conhece os Irmãos Karamazov do Dostoiévski? Gostei do seu texto, e fez lembrar o Grande Inquisidor que é um capítulo do livro que te pergunto: conhece?

maria n. disse...

Tata,
Li os Irmãos Karamazov há muitos anos, uma leitura a repetir.

(Obrigada CC :)

1 Espectador SC disse...

Muito Boa Tarde,

Aproveito a minha regular visita ao seu espaço para informar a abertura de um novo blog dedicado exclusivamente ao debate de temas falados no programa de televisão Sociedade Civil. Como espectador, este meu novo espaço visa expressar as minhas opiniões sobre o assunto falado no dia. Aproveito a minha passagem pelo seu blog para divulgar, para que todos visitem e que sigam este blog. Serão todos bem vindos, bem como a colocação de links está em aberto. Se a colocação for feita neste seu espaço, colocarei também no meu, basta informar.

http://umespectador.blogspot.com/

Boa continuação e espero que apareçam.

Anónimo disse...

Gostei do texto, senti-me numa dessas aldeias minhotas, rodeada por um padre como o descrito.