segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

ainda sobre as burcas

Estive alguns dias ausente da blogosfera e só agora tenho oportunidade de voltar a este assunto.

A proibição da burca em alguns locais por motivos de segurança faz todo o sentido assim como nas escolas, onde a burca não está em causa porque já é proibida. Os meus comentários aqui e no Jugular referiam-se à proibição total.

As opiniões sobre a proibição da burca servem de teste de litmus ideológico. Se questionamos a proibição da burca logo aparece alguém a perguntar se usamos burca, se somos anti-feministas e pró taliban. Questionar a proibição não é sinónimo de ser pró burca. Ser a favor do livre arbítrio também não. Dizer que a proibição diminui os direitos da mulher não é o mesmo que dizer que a burca e tudo o que lhe está associado é um direito da mulher. É dizer que a proibição as faz menos iguais porque as torna únicas em não poderem vestir o que querem. Malalai Joya odeia a burca, usa-a por questões de segurança porque lhe permite deslocar-se anonimamente (tem uma sentença de morte a pairar sobre ela) mas, enquanto encoraja as mulheres a deixar de usá-la e arrisca a vida lutando pelos direitos delas no Afeganistão, defende que deixar a burca tem de ser uma decisão delas. É contra a burca, mas tem uma ideia diferente sobre como livrar o Afeganistão dela. Eu concordo com esta perspectiva.

Sobre a negociação; negociar com as opções oferecidas pelo opressor não é uma escolha livre, não é um sinal de liberdade, mas elas usarão todos os meios que julguem melhorar, por pouco que seja, as suas vidas. Da minha parte não se trata de admitir “em 2010 e no coração da Europa, que uma mulher negoceie a sua liberdade em troca de uma burqa”, mas sim de não admitir que o estado colabore com o encarceramento dentro de casa daquelas que só podem sair com uma burca. A Helena lembra o caso do Fritzl a propósito da lei punir o opressor mas o facto é que ele esteve impune por muitos anos e foi descoberto devido a um acaso.

O ridículo da polícia nas ruas europeias interpelando mulheres com burca para as multar, a par da humilhação delas - uma imagem que nos remete para as ruas de Teerão - é suficiente para ser contra a proibição.

Nesta entrevista à revista Elle em Agosto de 2009, Fadela Amara, fundadora das Ni Putes Ni Soumisses, defensora da proibição total da burca e do hijab, reconhece a dificuldade de aplicação de uma lei contra a burca.

«Si on me pose abruptement la question, je suis évidemment pour. Mais je comprends et j’imagine très bien les difficultés à appliquer une telle loi. Je pense que le débat de la commission chargée de réfléchir à cette question va permettre d’orienter efficacement les décisions qui doivent être prises. Très honnêtement, je souhaiterais qu’elles permettent de faire disparaître étape par étape les voiles intégraux. »

A proibição não resolve a desproporção nas relações de poder entre homens e mulheres. Resolve-se com o empenho do estado no apoio a programas eficazes de assistência, informação e educação para a igualdade. A luta pela igualdade é um esforço permanente de longo prazo, mas o sucesso desse esforço fica comprometido com a hostilização das mulheres que usam a burca, e das que não usam mas apoiam as primeiras. Como é que se integram as mulheres na igualdade sem a colaboração delas? A tradição pode ser opressora mas nunca o é tanto como a tradição dos outros quando ela se impõe pela força. A força e a estigmatização do outro aumentam a frustração na qual o radicalismo recruta e se consolida.

1 comentário:

Dylan disse...

Só perca por tardia a entrada em vigor em Espanha da lei que proíbe o uso de véu integral como é o caso da burca. Custa a acreditar que todas essas mulheres escolheram livremente estes adereços, sujeitando-se a uma vergonhosa segregação social, a uma indigna submissão, a uma falta de adaptação pela cultura e desrespeito pela normas de segurança dos países de acolhimento. Como quer fazer crer a esquerda europeia, acenando hipocritamente com a bandeira da liberdade individual, isto não é um conflito entre o ocidente e o islão. O problema não está no traje mas naquilo que representa - a interpretação fundamentalista da Lei Islâmica onde não existe separação entre a religião e o direito. Só uma lição civilizacional de gerações mais novas que coloque a mulher num patamar idêntico ao do homem pode mudar mentes medievais.

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