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Não consegui ainda descobrir-lhe o sentido. As coisas oferecem-se-me como retalhos com os quais vou fazendo a manta. O que está por trás de tudo o que aparece; os movimentos, as palavras, a música, as imagens, as pequenas atenções – ainda - o ódio e a revolta, envolvem uma série de motivações profundas. Enriquecem o seu conteúdo e enriquecem o tipo de pessoas que somos, as nossas vidas, os relacionamentos, as crenças, os motivos, satisfações ou insatisfações; acalma os nossos medos. Empobrece-nos também porque se perde muito tempo com a insignificância, sobretudo a travestida de génio. O objectivo inicial de todos os objectivos é o mesmo, mas há muita coisa que nunca deveria ver a luz do dia. Algumas, felizmente, nunca a verão.
Há uma ruptura constante do blogue com o próprio blogue. Há sempre algo de novo, todos os dias, nem que seja no simples retomar das conversas do dia anterior, algumas do primeiro dia. Mas, dentro desse espaço o mais cativante não é isso. Há uma encenação trágico cómica com o melhor e o pior de nós. Pontos de encontro de vários pequenos mundos que se acotovelam enviando mensagens uns para os outros, como vizinhas palrando de janela para janela, ligam-se numa teia de interesses, de opiniões e de gostos comuns e desligam-se com fúria ou indiferença à mínima contrariedade. Não convém esquecer construir barreiras e demarcar fronteiras; de assinalar devidamente as trincheiras e as estradas sem saída. Sim, as estradas sem saída.
Estive alguns dias ausente da blogosfera e só agora tenho oportunidade de voltar a este assunto.
A proibição da burca em alguns locais por motivos de segurança faz todo o sentido assim como nas escolas, onde a burca não está em causa porque já é proibida. Os meus comentários aqui e no Jugular referiam-se à proibição total.
As opiniões sobre a proibição da burca servem de teste de litmus ideológico. Se questionamos a proibição da burca logo aparece alguém a perguntar se usamos burca, se somos anti-feministas e pró taliban. Questionar a proibição não é sinónimo de ser pró burca. Ser a favor do livre arbítrio também não. Dizer que a proibição diminui os direitos da mulher não é o mesmo que dizer que a burca e tudo o que lhe está associado é um direito da mulher. É dizer que a proibição as faz menos iguais porque as torna únicas em não poderem vestir o que querem. Malalai Joya odeia a burca, usa-a por questões de segurança porque lhe permite deslocar-se anonimamente (tem uma sentença de morte a pairar sobre ela) mas, enquanto encoraja as mulheres a deixar de usá-la e arrisca a vida lutando pelos direitos delas no Afeganistão, defende que deixar a burca tem de ser uma decisão delas. É contra a burca, mas tem uma ideia diferente sobre como livrar o Afeganistão dela. Eu concordo com esta perspectiva.
Sobre a negociação; negociar com as opções oferecidas pelo opressor não é uma escolha livre, não é um sinal de liberdade, mas elas usarão todos os meios que julguem melhorar, por pouco que seja, as suas vidas. Da minha parte não se trata de admitir “em 2010 e no coração da Europa, que uma mulher negoceie a sua liberdade em troca de uma burqa”, mas sim de não admitir que o estado colabore com o encarceramento dentro de casa daquelas que só podem sair com uma burca. A Helena lembra o caso do Fritzl a propósito da lei punir o opressor mas o facto é que ele esteve impune por muitos anos e foi descoberto devido a um acaso.
O ridículo da polícia nas ruas europeias interpelando mulheres com burca para as multar, a par da humilhação delas - uma imagem que nos remete para as ruas de Teerão - é suficiente para ser contra a proibição.
Nesta entrevista à revista Elle em Agosto de 2009, Fadela Amara, fundadora das Ni Putes Ni Soumisses, defensora da proibição total da burca e do hijab, reconhece a dificuldade de aplicação de uma lei contra a burca.
«Si on me pose abruptement la question, je suis évidemment pour. Mais je comprends et j’imagine très bien les difficultés à appliquer une telle loi. Je pense que le débat de la commission chargée de réfléchir à cette question va permettre d’orienter efficacement les décisions qui doivent être prises. Très honnêtement, je souhaiterais qu’elles permettent de faire disparaître étape par étape les voiles intégraux. »
A proibição não resolve a desproporção nas relações de poder entre homens e mulheres. Resolve-se com o empenho do estado no apoio a programas eficazes de assistência, informação e educação para a igualdade. A luta pela igualdade é um esforço permanente de longo prazo, mas o sucesso desse esforço fica comprometido com a hostilização das mulheres que usam a burca, e das que não usam mas apoiam as primeiras. Como é que se integram as mulheres na igualdade sem a colaboração delas? A tradição pode ser opressora mas nunca o é tanto como a tradição dos outros quando ela se impõe pela força. A força e a estigmatização do outro aumentam a frustração na qual o radicalismo recruta e se consolida.