sábado, 2 de janeiro de 2010

to be continued

O 26 tem um tubo enfiado no nariz e uma máscara de oxigénio que cobre o tubo, o nariz e a boca. O 25 de ontem morreu. Foi substituído por outro que tem setenta anos e é padre. “É preciso ter muito azar”, disse o meu filho, “morrer a poucos dias de completar cem anos”. Para ele o azar é a impossibilidade de alcançar um número raro. Seria um azar estar perto de Plutão e não aterrar para podermos brincar com o nosso peso. O azar não é morrer, é morrer com noventa e nove anos e 360 dias. O padre ocupa agora a cama 25, insuspeito da morte do predecessor que ainda agora ali respirava. Alisou os lençóis sobre o pijama de flanela às riscas azuis e brancas, recostou-se dentro da cova deixada pelo cadáver no colchão e adormeceu inspirando roncos e expirando sibilos. Brevemente um colega de profissão estará a rezar a ladainha dos funerais sobre o féretro e a carimbar o passaporte do 25 de 99 para o paraíso. Não é essa ideia do depois uma forma de evitar celebrar devidamente uma vida? Quando morremos essa é a nossa história e acaba ali. Não há nada de reconfortante em chegar à última cena de um filme e descobrir que a história afinal não acabou, que termina sem terminar em to be continued.

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