segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

avc

O 26 fez-me sinal com a mão para que me aproximasse. Cheguei-me ao pé dele e a mão agarrou a minha com toda a força, muita para corpo tão pouco, quase caí por cima dele. Não entendia o que dizia sob a máscara de oxigénio. Enfiei-lhe o braço por baixo do lençol, seria frio? O braço estava gelado embora o quarto estivesse muito quente. Será um doente terminal como o 25 antes do 25 ser o padre? O padre que tem mais visitas que o São Bentinho da Porta Aberta. São muitas mas demoram-se pouco. Não quero cansar o senhor padre, diz uma, não se preocupe com nada que nós tratamos de tudo, diz outro – o padre não parece nada preocupado -, eu vejo o que está marcado e despacho as missas, diz um padre pequenino e gorducho. Uma mulher em forma de barril apresenta-se, “o senhor padre não me conhece, sou do voluntariado” e aponta para as mamas onde ondula a identificação estampada na t-shirt, e que a dona fulana de tal lhe pediu que fosse ao piso nove ver se o senhor padre precisava de alguma coisa; falava muito alto como se tivesse engolido um megafone, como se o padre fosse surdo e, quem sabe, burro porque repetia tudo duas vezes às vezes três. Nos intervalos das visitas o padre adormece sem esforço soltando roncadelas fenomenais que fazem estremecer os soros pendurados por cima das camas. Uma mulher de passo elegante e pulsos finos entrou. Percebe-se que aquela era a visita que ele esperava e falam carinhosamente um com o outro, baixinho, segurando-se pelas mãos. Depois de ela sair já não adormece.
O 26 continuava agarrado à minha mão e finalmente entendi. Queria falar urgentemente com a mulher e chamou-me Paula. Os confusos inquietam-me. Não é preciso muito para duvidar se são eles se sou eu quem confunde tudo.
O 27, de costas viradas para o 26 e o 25, observa os néones pela janela, as filas de trânsito na circular que entopem os desvios para o hospital e para o shopping, a chuva que tem caído sem parar, os pequenos diamantes nos vidros das janelas. Junto a si o telemóvel e a Der Spiegel de há quinze dias que ele vai lendo aos soluços. É por ele que estou aqui, à conta do arrastar da fala e da perda de força na metade esquerda do corpo, tal como nos anúncios que este Natal se materializaram em todas as paragens de autocarro.

2 comentários:

blue disse...

emocionante, Maria. conheço as janelas desse hospital. saberia apontar aquela onde me encostei, mas já não me lembro do número da cama, apenas de quem morreu nela.

maria n. disse...

Também não me lembro do número da cama onde morreu a minha mãe, mas havia uma janela e muita chuva também.