Ao ler as caixas de comentários onde se discute a problemática da burqa reparo que o comentário mais recorrente é deste género:
Se querem andar de véu que vão para o país delas.
Há uma multidão desejosa de espalhar este pedaço de alma por tudo quanto é sítio, não apenas cá mas também nos sites estrangeiros. Que se passa com as pessoas? Acham que é sexy? Das 1.900 mulheres que usam o véu em França, dois terços são francesas e um pouco menos da metade são-no de segunda e terceira geração. Mas mesmo que assim não fosse, este tipo de comentário continuaria a não ser inteligente, a nada acrescentar ao debate e a ser revelador de uma mente profundamente chata.
via Liberation
sábado, 30 de janeiro de 2010
chatos
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
guerra dos véus
Malak Hifni Nassef (1886 - 1918), feminista egípcia, dizia a propósito do livro “Emancipação da Mulher” de Qasim Amin, que se no passado o homem as mandava cobrir o rosto, elas cobriam-no e se agora as mandava descobri-lo, elas descobriam-no, afirmando de seguida que se não havia dúvidas que ele tinha errado contra elas diminuindo os seus direitos no passado, errava agora também diminuindo os seus direitos no presente. A decisão de tirar ou pôr nunca era delas.
Na luta dos véus, estou com Malak. Construímos toda uma simbologia baseada na burqa mas ela assenta em grande parte no seu uso obrigatório e na punição violenta das infractoras. Lá no fundo a maior repulsa é essa. Convém não esquecer.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Network
Do filme Network (1976)
«You are an old man who thinks in terms of nations and peoples. There are no nations. There are no peoples. There are no Russians. There are no Arabs. There are no third worlds. There is no West. There is only one holistic system of systems, one vast and immane, interwoven, interacting, multivariate, multinational dominion of dollars. Petro-dollars, electro-dollars, multi-dollars, reichmarks, rins, rubles, pounds, and shekels.
(...)
We no longer live in a world of nations and ideologies, Mr. Beale. The world is a college of corporations, inexorably determined by the immutable bylaws of business. The world is a business, Mr. Beale. It has been since man crawled out of the slime. And our children will live, Mr. Beale, to see that perfect world in which there's no war or famine, oppression or brutality -- one vast and ecumenical holding company, for whom all men will work to serve a common profit, in which all men will hold a share of stock, all necessities provided, all anxieties tranquilized, all boredom amused.
And I have chosen you, Mr. Beale, to preach this evangel.
Beale: But why me?
Jensen: Because you're on television, dummy. Sixty million people watch you every night of the week, Monday through Friday.»
feminismo
Eu não sou feminista, mas as mulheres têm de ter as mesmas oportunidades que os homens. Não sou feminista mas as mulheres têm de ganhar o mesmo que os homens. Não sou feminista mas sou contra o sexismo. Estas e outras frases semelhantes, que se podem resumir numa só - não sou feminista, mas sou a favor da igualdade dos géneros - são afirmações que nos habituamos a ouvir à nossa volta no meio dos aplausos de interlocutores masculinos.
Ao contrário dos outros “ismos” o feminismo tem a particularidade de poder ser definido e vivido individualmente e ao mesmo tempo ser visto como uma ameaça quando se assume como colectivo. Cada mulher define-o como quer, como lhe dá mais jeito, retira dele as partes que lhe interessam e recusa as que estorvam os seus objectivos pessoais ou que esbarram nas suas convicções. Podemos até tirar-lhe a palavra. Podemos dizer que somos femininas e não feministas e assim ridicularizar quem acredita que o primeiro não existe no segundo. Ficam à toa sem saber como atacar aquilo que é na sua essência feminista mas já não parece feminista porque se declara feminino.
Por cá quase ninguém milita no feminismo mas toda a gente milita na feminilidade. De facto, o feminismo tem de tal forma má reputação (em parte, graças ao estereótipo representado na imagem), que a coisa mais feminista a fazer no Portugal de hoje talvez seja proclamar a feminilidade como antónimo do palavrão. Libertem-se pois as oprimidas pela palavra feminismo, mas não sejam estúpidas. Não se ponham a definir a feminilidade pois correm o risco de acabarem a comparar o tamanho dos pêlos com as próximas gerações enquanto eles continuam a passar-vos a perna.
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
castigo
A ciência da Educação já deve ter inventado de tudo para disciplinar as mentes e os corpos mais rebeldes mas ainda não perdeu a capacidade de nos surpreender. Numa escola do Reino Unido a disciplina passa por Mozart, Verdi e Bach. Parece que a música desses compositores tem efeitos positivos no comportamento e aproveitamento escolar dos alunos. Não, não se trata de elevar a experiência musical dos pupilos. É castigo.
Youngsters at other schools might expect lines or a 30-minute detention, but those caught breaking the rules at West Park have to sit in silence for an hour listening to classical music on a Friday evening.
(…)
"I can hear the groans as it starts but I always ensure the volume is high. Hopefully, I open their ears to an experience they don't normally have and it seems many of them don't want to have it again, so it's both educational and acts as a deterrent."
Se falhar a longo prazo - os alunos podem começar a gostar do castigo - a escola pode sempre tentar o método Clockwork Orange.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
nojo
As escutas feitas a Pinto da Costa estão no You Tube, leio no Conquilhas. Quando julgamos que isto não pode piorar, piora.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
promessa
O que é uma jovem promessa? Um jovem que promete qualquer coisa, geralmente de forma involuntária. Uma expressão que pretende identificar os que vão fazer qualquer coisa para o avanço da humanidade dos que não vão, dos que os vão adular, dos que vão votar neles, dos que vão trabalhar para eles, dos que vão passar fome por eles.
Gostaria de pensar na minha pessoa como uma promessa. Na minha juventude as promessas não passavam dos 18 anos. Éra-se uma promessa na infância e na adolescência. Hoje, um velho de trinta anos ainda pode ser uma jovem promessa, mas os trinta já lá vão. Depois dos quarenta ninguém é jovem e muito menos promessa. Amanhã talvez a juventude se estenda aos quarenta e eu terei cinquenta. É sempre assim década a década. Fora do tempo nunca prometo nada.
domingo, 17 de janeiro de 2010
Haiti
«A true revolution of values will soon cause us to question the fairness and justice of many of our past and present policies. On the one hand we are called to play the good Samaritan on life’s roadside; but that will be only an initial act. One day we must come to see that the whole Jericho road must be transformed so that men and women will not be constantly beaten and robbed as they make their journey on life’s highway. True compassion is more than flinging a coin to a beggar; it is not haphazard and superficial. It comes to see that an edifice which produces beggars needs restructuring. A true revolution of values will soon look uneasily on the glaring contrast of poverty and wealth.»
Martin Luther King - “Beyond Vietnam.”
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
bomboca
A Quitéria separa cuidadosamente o lixo, lava as embalagens e os vidros à mão e coloca-o em sacos do supermercado. Ralha aos filhos quando se descuidam e misturam o plástico com o cartão. O homem adaptou-se, finalmente, e já é quase tão exigente quanto ela. Ainda não se habituou a lavar as embalagens da manteiga e as latas do atum mas a Quitéria sabe que é uma questão de tempo. O trabalho sobre os três erres (reciclar, reduzir, reutilizar) já está pronto e arrumado na mochila do filho. A Quitéria fê-lo no computador sem precisar de copiar e colar o texto da Wikipédia como fazem os outros pais quando os filhos trazem trabalhos da escola. Veste o casaco e agarra nos quatro sacos de lixo. Desce no elevador, atravessa a rua, abre a tampa do contentor e coloca lá um dos sacos. Ao lado há um vidrão para onde atira as garrafas de vidro, uma a uma. Os contentores para cartão e para embalagens ficam na outra rua, por isso, a Quitéria olha para um lado, para o outro e deposita os dois sacos que restam no chão, muito encostadinhos à bomboca do lixo doméstico, antes de voltar a entrar no prédio, subir no elevador e dar o beijo de boas-noites nos filhos.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
avc
O 26 fez-me sinal com a mão para que me aproximasse. Cheguei-me ao pé dele e a mão agarrou a minha com toda a força, muita para corpo tão pouco, quase caí por cima dele. Não entendia o que dizia sob a máscara de oxigénio. Enfiei-lhe o braço por baixo do lençol, seria frio? O braço estava gelado embora o quarto estivesse muito quente. Será um doente terminal como o 25 antes do 25 ser o padre? O padre que tem mais visitas que o São Bentinho da Porta Aberta. São muitas mas demoram-se pouco. Não quero cansar o senhor padre, diz uma, não se preocupe com nada que nós tratamos de tudo, diz outro – o padre não parece nada preocupado -, eu vejo o que está marcado e despacho as missas, diz um padre pequenino e gorducho. Uma mulher em forma de barril apresenta-se, “o senhor padre não me conhece, sou do voluntariado” e aponta para as mamas onde ondula a identificação estampada na t-shirt, e que a dona fulana de tal lhe pediu que fosse ao piso nove ver se o senhor padre precisava de alguma coisa; falava muito alto como se tivesse engolido um megafone, como se o padre fosse surdo e, quem sabe, burro porque repetia tudo duas vezes às vezes três. Nos intervalos das visitas o padre adormece sem esforço soltando roncadelas fenomenais que fazem estremecer os soros pendurados por cima das camas. Uma mulher de passo elegante e pulsos finos entrou. Percebe-se que aquela era a visita que ele esperava e falam carinhosamente um com o outro, baixinho, segurando-se pelas mãos. Depois de ela sair já não adormece.
O 26 continuava agarrado à minha mão e finalmente entendi. Queria falar urgentemente com a mulher e chamou-me Paula. Os confusos inquietam-me. Não é preciso muito para duvidar se são eles se sou eu quem confunde tudo.
O 27, de costas viradas para o 26 e o 25, observa os néones pela janela, as filas de trânsito na circular que entopem os desvios para o hospital e para o shopping, a chuva que tem caído sem parar, os pequenos diamantes nos vidros das janelas. Junto a si o telemóvel e a Der Spiegel de há quinze dias que ele vai lendo aos soluços. É por ele que estou aqui, à conta do arrastar da fala e da perda de força na metade esquerda do corpo, tal como nos anúncios que este Natal se materializaram em todas as paragens de autocarro.
domingo, 3 de janeiro de 2010
sábado, 2 de janeiro de 2010
máquinas de ouvir
Antes da descoberta do radar era assim que os exércitos tentavam prever a aproximação dos aviões antes de entrarem no campo visual. Fascinante.


to be continued
O 26 tem um tubo enfiado no nariz e uma máscara de oxigénio que cobre o tubo, o nariz e a boca. O 25 de ontem morreu. Foi substituído por outro que tem setenta anos e é padre. “É preciso ter muito azar”, disse o meu filho, “morrer a poucos dias de completar cem anos”. Para ele o azar é a impossibilidade de alcançar um número raro. Seria um azar estar perto de Plutão e não aterrar para podermos brincar com o nosso peso. O azar não é morrer, é morrer com noventa e nove anos e 360 dias. O padre ocupa agora a cama 25, insuspeito da morte do predecessor que ainda agora ali respirava. Alisou os lençóis sobre o pijama de flanela às riscas azuis e brancas, recostou-se dentro da cova deixada pelo cadáver no colchão e adormeceu inspirando roncos e expirando sibilos. Brevemente um colega de profissão estará a rezar a ladainha dos funerais sobre o féretro e a carimbar o passaporte do 25 de 99 para o paraíso. Não é essa ideia do depois uma forma de evitar celebrar devidamente uma vida? Quando morremos essa é a nossa história e acaba ali. Não há nada de reconfortante em chegar à última cena de um filme e descobrir que a história afinal não acabou, que termina sem terminar em to be continued.


