sábado, 5 de dezembro de 2009

rapaz de veludo

Numa casa na baixa do Porto havia um pátio onde nas tardes delicadas de Março o rapaz de calções de veludo entretinha as convidadas do chá. Um pequeno Mozart, dizia a mãe. Um prodígio, diziam as outras. Ele sorria e atacava de novo o violino comovendo os vidros das clarabóias e as areias do granito.
Uma rapariga com um vestido preto desmedido cintado por um avental branco devorava uma fatia de pão com queijo na sala de costura. Era uma criança, não mais de dez anos, aproximadamente os mesmos do rapaz de veludo. Uma maravilha, pensava. Os dedos imitando uma pinça recolhiam uma a uma as pérolas de milho que caíam no regaço. Sôfrega, fazia-as descer pelo esófago aos trambolhões com o último átomo de queijo, mantendo-se imóvel até ouvir o estrondo da queda numa caverna maior que ela. Magríssima, não andava muito longe do esqueleto que encontrara nessa manhã dentro do caixão que estava debaixo da cama. A curiosidade rendida ao medo acabou por ceder às noites mal dormidas; não era fácil adormecer com um caixão sob a cama. Puxou a enorme caixa negra para fora do seu túmulo, os caracteres escritos a giz junto aos ferrolhos diziam: Mozart. Abriu-a e lá de dentro um sorriso ossudo ameaçou comê-la. A tampa caiu com um alarido de metal, madeiras e ossos, julgou também de vozes, talvez as vozes dos pequenos seres, alguns muito parecidos com bebés, conservados em frascos dentro dos armários da sala contínua àquela onde estava proibida de entrar. Lembrou-se do pai e das mãos que guardaram as suas durante toda a viagem na camioneta que atravessou colinas e vales, por estradas de paralelos ladeadas por vinhas, campos de milho, pastos de vacas, girassóis orgulhosos nos jardins dos solares. Mãos que nunca descolaram das suas quando cruzaram ruas e praças invictas nem quando se detiveram em frente da casa destino. Beijou o anel da mulher que surgiu à porta ao som do batente, “a sua bênção, tia” e o pai pousou a mão dela na mão da tia-avó dizendo-lhe, “aqui está a minha menina” e perdeu-se no meio da multidão. Escorregou pela rua em direcção ao rio, o pai, imaginando a filha médica, demasiado confiante no mecenato da tia, a tia que não tinha filhos e tinha posses e lhe tinha escrito “manda-me a menina” quando soube que a menina era inteligente e que pena seria ficar apenas com o ensino primário.
O rapaz de veludo recolhia os aplausos do público do pátio. A rapariga ajeitou o laço do avental e os punhos de renda do uniforme que a tia a fazia vestir quando recebia familiares, outros convidados ou as senhoras que introduzia na sala que lhe estava proibida.
- Quando estiveres de uniforme não me chames tia. Chama-me “minha senhora”.
Encostou o nariz à vidraça observando o rapaz de veludo inchado de acordes de violino. Que bem que o primo tocava e como gostaria ela de aprender violino para chorar assim os abortados nos frascos e fazer dançar o esqueleto nas noites de insónia.

3 comentários:

blue disse...

que história tão triste.

maria n. disse...

Sim, muito triste. O rapaz de veludo fez carreira e tornou-se, anos mais tarde, uma pessoa bastante conhecida em Portugal. Ela não foi médica nem violinista. Duas infâncias tão próximas, por laços familiares até, e tão distantes.

Amitaf disse...
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