domingo, 1 de novembro de 2009

varanda


Kristin Bjornerud

As mulheres enchiam a varanda, o lugar mais fresco da casa, em trajes interiores, soprando a renda das combinações com pequenos leques plissados em papel de jornal. Fumavam e transpiravam o chá nos corpos; o rímel manchado nas pálpebras, as unhas pintadas de vermelho, o cabelo domesticado prestes a desmoronar-se. Eram o espectáculo preferido da minha infância. Aninhava-me aos pés delas, embalada pelas histórias de faca e alguidar, a enumeração dos defeitos dos seus homens, os palavrões que podiam dizer sem pimenta na língua e o perfume sarapintado com o suor que se evaporava nas cavas dos vestidos que descansavam nas cruzetas. Eram excessivamente mulheres para os homens que tinham.
Nessas tardes de maldizer dobrava-se o mundo numa trança para a bater na pedra dura das lavadeiras do rio, espremê-la e estendê-la a corar num relvado muito esticadinha ao sol. Era assim que suportavam os homens. A vida regressava ao seu estado imaculado. Sem manchas.

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