quarta-feira, 14 de outubro de 2009

múmias

Movia a ossatura, mumificado pela comitiva de bandeiras e algumas câmaras de TV, transbordando dos passeios para a rua incomodando o trânsito. O mesmo sorriso da adolescência, agora um pouco mais cínico, o mesmo corte de meia malga, agora com menos cabelo, o rosto excessivamente envelhecido, talvez, quiçá, do sol de Lisboa em demasia. Nunca pensei que desse em político, distracção minha - a política também funciona por dinastias.

Os políticos que a província embarca para a capital descem, por um dia, dos placards à calçada. Desembrulham-se na rua entre bandeiras e slogans parolos, apertando todas as mãos, beijando rostos estupefactos de mulheres encostadas nas soleiras das portas. Fazem todos os sacrifícios. Deixam as velhas lamberem-lhes a cara. Elas sabem que eles não gostam. Riem-se umas com as outras trocando detalhes do seu prazer maléfico, comparando cheiros de colónias e sabores de after-shave. Coleccionam lambidelas e no dia do voto decidem pela memória do nariz e da língua. Eles repõem no corpo camadas de linho encharcadas em resina, a toda a velocidade em direcção ao sul.

6 comentários:

Anónimo disse...

É bom tê-la de volta! Pensei, por momentos, que tivesse emigrado...
Esta música é maravilhosamente bela e eu, Maria, vivo da música.
Beijo!

CCF disse...

Voltou sim, e a escrita intacta e fantástica como antes.
~CC~

Helena disse...

"Desembrulham-se na rua" - aaaah, por uma coisa assim, quase nem me importo de esperar!
:-)

Anónimo disse...

Um bom regresso!

Jose Paulo

Joana Lopes disse...

Belo texto, Maria - um bom regresso.

Anónimo disse...

Belo gosto.