quinta-feira, 3 de setembro de 2009

kartoffelsalat

Esperava encontrar uma mulher vencida pelas investidas do cancro, débil, mergulhada em depressão, movendo-se penosamente da cama para o sofá e do sofá para a cama, uma resignação à inutilidade que a certa altura acomete os condenados e os faz subscrever a eutanásia ou suspirar pelo suicídio assistido; um esforço nos sorrisos e abraços nos netos com quem já não podem brincar, para quem já não tocam harmónica nem lêem livros, a quem já não ensinam a rega das flores e os segredos das criaturas do jardim. Esperava encontrar a fotocópia do Karl, resignado à morte traçada na radiografia, o mesmo distanciamento a meio das conversas, imaginando-se, talvez, como a alma de uma morta observando a vida que seguiria o seu curso depois da dela, sem ela. Imaginava-me apertando-lhe os ossos como apertei os do Karl, já morto mas ainda vivo, chorando no meu ombro quando nos vimos pela última vez, sabendo que era a última vez.

Enganei-me. Fui encontrá-la atarefada na cozinha preparando a sua famosa salada de batata para o churrasco de boas-vindas. Se não fosse pelo lenço azul que lhe esconde o crânio de onde desapareceram os caracóis cinza de que se orgulhava, dir-se-ia que ela e a doença eram desconhecidas uma da outra. A intimidade das duas só não passa desatenta a quem se dilata na auscultação da multidão de objectos de cozinha espalhados pelos balcões, sempre à mão, para evitar esticar braços para os alcançar nas prateleiras ou dobrar a espinha para os apanhar dentro dos armários ou das gavetas de baixo. A organização metódica da cozinha permanece agora com cada coisa no seu espaço determinado no granito dos balcões.

Há muitos anos que quero saber como prepara a salada de batata. Tenho atravessada nas memórias da Adeline uma nota onde está escrito “pedir o segredo da salada de batata”, mas em cada reencontro alguma coisa acontece que me impede de lho pedir ou de a ver prepará-la do princípio até ao fim. Há pequenas coisas que são assim, tão fáceis de obter ou realizar e que nunca se concretizam, como se a sua realização fechasse qualquer coisa que queremos manter em aberto; como se depois de me contar o segredo ela caísse morta no chão e desaparecesse entre caçarolas e tabuleiros. Poderia esquecer a salada de batata - já tenho várias receitas - mas a dela é diferente. É uma obsessão, como a de Karl com a pequena cancela de madeira do meu jardim que ele prometia arranjar quando viesse de visita, mas que, uma vez cá, nunca arranjava definitivamente apesar de passar horas à volta dela de martelo na mão e pregos na boca. Em vez disso plantou-me árvores ao redor das quais Adeline semeou cravos xaropes. Em vez do segredo da salada de batata trouxe comigo fotografias dos antepassados e histórias de lobos, de imigração e de guerra. Histórias de uma criança alemã da Bessaravia que atravessou a Europa como um bispo ou um cavalo atravessa um tabuleiro de xadrez, peças empurradas por homens que sem nunca a olharem nos olhos decidiram o seu destino. O destino de meninas que espreitam de fotografias sépia com duas tranças louras fechadas por enormes laços de seda.

9 comentários:

Helena disse...

Que bom que voltaste!

Sal disse...

Muito bonito. Obrigada

maria n. disse...

Obrigada, Helena e Sal.

É bom estar de volta :)

CCF disse...

Lindo...tinha saudades desta escrita, dessas mulheres e meninas, das pessoas que traz a tua escrita.
~CC~

CNS disse...

Uma fluidez que nos suga para dentro das palavras.

blue disse...

olha, eu esperava novos posts. que é bom ler-te.

Anónimo disse...

olha, também eu!
Jose Paulo

Amitaf disse...

Hum! Delicioso. Tanto o texto como a salada de batata da Adeline.
Fiquei com saudades dos tempos em que estivemos as três na Alemanha...

maria n. disse...

Estou de volta, com posts mais frequentes (espero, o tempo não tem sido muito).
Obrigada a todos pelos comentários que deixaram aqui.