domingo, 9 de agosto de 2009

ponto de cruz

Esta tia-avó tinha uma alma estranha colada a si e um tumor no fundo das costas que ela disfarçava usando vestidos com laços que atavam do lado esquerdo. Casou com um militar e foi viver para Coimbra onde teve uma filha a quem deixou a alma estranha. A prima escrevia-me postais no meu aniversário numa caligrafia pontiaguda que lembrava as pequenas facas que ela escondia numa das gavetas do psiché e que, nos momentos em que a alma tomava conta dela, fazia deslizar uma a uma pelos lábios perguntando-se como seria se os retalhasse em dez pedaços. Não chegava a fazê-lo. Escolhia partes do corpo que o vestuário escondia da prova dos outros e bordava a carne com pequenos cortes em cruz, imitando a posição das espadas do pai expostas na parede. Enviava-me as facas e o ponto de cruz escritos em postais com fotografias de rosas vermelhas descomunais.

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