quarta-feira, 22 de julho de 2009

vozes

No sótão habita o pó dos objectos supérfluos e mil e uma criaturas que fazem dele o seu habitat. Cumprem o seu ciclo de vida entre as minhas coisas, emigrantes, talvez, de um mundo natural, algumas, outras terão nascido e morrido ali adquirindo nacionalidade por direito de nascença. Encontro cadáveres quando levanto caixas e arrasto móveis, as mãos escuras de pó que num impulso se dirigem para o aspirador e o pé que se queda suspenso sobre o botão de ligar e desligar. Ainda não. Observa. Agora sim. A máquina abre a bocarra estrídula e devora as mil e uma mortes que coabitam o sótão com as mil e uma vidas cujas vozes, eu sei, à noite descerão veios de madeira e cruzarão paredes e tectos, até chegarem ao meu quarto. Aninhar-se-ão por baixo da cama junto das criaturas que se alimentam aspirando as células que se desapertam da minha pele.

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