quinta-feira, 16 de julho de 2009

perna de pau


o filhote mais novo desfazendo uma curva

Os meus irmãos faziam carrinhos de rolamentos. Uma tábua que se ia pedir ao carpinteiro, quatro rolamentos que se compravam na loja do senhor Matos e uma corda ligada entre as rodas e a tábua, a servir de direcção, e já estava; um carro que atingia não sei quantos à hora na descida, eram muitos e sem travões. Ao fundo da rua havia uma casa embutida na muralha, habitada por um velho que estava sempre sentado nos degraus que desciam até ao passeio, uma perna flectida e outra sempre estendida. Cabelo no ar agarrada às orelhas do meu irmão, lá íamos nós a toda a velocidade pela rua abaixo em rota de colisão com a perna de pau.
- Ai que já vos esbarrastes - dizia o velho.
- Desculpa.
Um joelho esfolado, um cotovelo raspado, agarrávamos na corda e puxávamos o carrinho de rolamentos pela rua acima, determinados a repetir a corrida, mas desta vez era eu - Geraldo sem Pavor - aos comandos da tábua. E lá íamos nós outra vez, sem remorso, pela muralha abaixo. Toda a gente sabia que as pernas de pau não doíam.

5 comentários:

Carlos Pires disse...

E durante a descida faziam comentários divertidos e inteligentes acerca da natureza humana e coisas limítrofes, como o Calvin e o Hobbes nas suas descidas de toboggan?

bell disse...

Outros tempos! Gostei do contraste entre a foto e o texto. E não era muito mais divertido fazer o próprio carro, esfolar os joelhos, atropelar vezes sem conta a perna de pau?

maria n. disse...

Carlos,
Na minha infância o Calvin ainda não tinha sido inventado, mas penso que todas as crianças têm alguma coisa dele. Nas nossas descidas, o diálogo era mais do género "vira para a esquerda", "vira para a direita" e "cuidado com o marco (do correio)".

Bell,
Eu acho que sim, que era mais divertido, sobretudo pela imensa liberdade que tínhamos. Agora é tudo perigoso e tudo tem de ser feito nos sítios próprios sob vigilância apertada. A segurança é óptima e eu sou a primeira a exigi-la para os meus filhos, mas há qualquer coisa que se vai perdendo.

blue disse...

sempre tive inveja dos rapazes, nessa matéria. agora, fico com inveja de ti.

maria n. disse...

Éramos muito pequenos. Nessa idade, na minha casa, quase não havia diferenças entre rapazes e raparigas. Era-nos dada a mesma liberdade. Foi diminuindo para as raparigas com o crescimento. Eles continuaram a ser aventureiros, nós tínhamos de ser umas senhoras.