sexta-feira, 24 de julho de 2009

lista

Quando chegou ao último item da lista pôs-se à espera. O papel amarfanhado, escurecido pelo prolongamento na carteira e pelo manusear frequente, fora escrito com a rapidez de uma lista de compras numa caligrafia redonda com as inevitáveis bolas semi-desfeitas sobre os is, as curvaturas dos dês, dos pês e dos bês imitando protuberâncias femininas e os falos curtos e gordos dos efes negando erecções a rabos e mamas de perfil. Pertences do homem que já não vivia ali. Pertences da mulher que já não era. Pertences da mãe octogenária que só parira uma vez. Pertences da casa. Sonhos de fertilidade que não tivera. Brochura da viagem a Itália onde acenara ao homem de roupas barrocas que não lhe devolveu a fé. Cigarros, batom e lenços de papel. Provas de identidade.
Um a um, desfizera-se de quase todos os itens da lista e estava à espera. A mãe apoiava-se nela, braço enfiado no braço. Assistira ao esvaziamento da casa em silêncio, nada dizendo quando os homens da empresa de recolha de pertences os foram carregar num camião branco muito sujo. Habituara-se às pequenas loucuras da filha, velha demais para a contrariar. Seguiu-a como um cordeiro até ao táxi que as deixou junto da linha do comboio. Caminharam um pouco, um último olhar à lista antes de a rasgar em pedacinhos. “Nós”, era o último item. Quando o comboio se aproximou a filha empurrou a mãe para a linha. Atirou-se de seguida na mesma direcção.
O taxista não queria acreditar quando leu a notícia no jornal. Se ele adivinhasse, se soubesse que as conduzia à morte não as teria levado. Os homens pensam que tudo depende deles. Pensam que se matam por eles. Pensam que as salvam.

(pequena estória inspirada nesta notícia)

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