segunda-feira, 6 de julho de 2009

identidade


mulheres da limpeza, da série Comerciantes de Irving Penn


Quando pela primeira vez pus os pés fora de Portugal recebi a minha primeira lição de identidade. Lá fora não era com artistas, exploradores e poetas, que nos identificavam. Não era com a veia que nos levou a dar mundos ao mundo. Era com as mulheres da limpeza.

5 comentários:

ecila disse...

Isso aconteceu-me em Franca e na Suica...

Helena disse...

França?
As pessoas com quem contacto na Alemanha sabem dos descobrimentos e até de Vasco da Gama, de Fernando Pessoa, alguns até de Saramago, da Maria João Pires, fado e futebol.
Tenho sorte.

ecila disse...

Helena, nao é uma questao de sorte, pois na Alemanha também nunca me aconteceu! (tal como dizes, relacionam-nos com os descobrimentos, com o Saramago, o Damasio, o fado, etc). Mas na Franca e na Suica é diferente :-P

maria n. disse...

Na França e na Suíça sem dúvida. O nome Maria, por exemplo, para muitos era sinónimo de empregada doméstica. Na Alemanha não era tanto assim mas havia algum desdém, embora hoje tenha de facto mudado.

Nós saíamos de cá com uma ideia de nós (enquanto povo) totalmente diferente da ideia de nós que eles tinham. Lembro-me de ter ido ver uma exposição sobre Portugal no centro Pompidou em Paris, toda contente, e sair de lá com lágrimas nos olhos. O povo lá retratado não tinha nada a ver com o povo que eu conhecia. Chocou-me mas tive de reconhecer que era verdade. Nós éramos assim. Pobres, incultos, de uma religiosidade doentia. Bom povo, mas analfabeto. Vascos da Gama da esfregona e do tijolo.

Helena disse...

O problema é termos feito a primária durante o Estado Novo, e não termos tido direito a reciclagem da ideologia inculcada. O glorioso povo de marinheiros e brandos costumes, por todos tão amado...
E nem falo da reconquista, essa guerra justa dos cristãos bons contra os mouros maus.

Na Alemanha não há um peso tão grande de imigrantes portugueses como na França ou na Suíça. As empregadas de limpeza são turcas, gregas, croatas, uma ou outra portuguesa.

Conhecem Portugal para lá dos seus emigrantes, mas com olhos do centro Pompidou, digamos assim.
No ano passado vi uma exposição sobre os descobrimentos portugueses num museu de Berlim. Um feito excepcional, sim, mas também um país de pérolas e porcos: o projecto de Colombo recusado pelo rei de Portugal, um Fernão de Magalhães caído em desgraça na corte portuguesa, fazendo a célebre circum-navegação por conta do rei de Espanha.

Uma alemã disse-me uma vez
- e nunca mais lhe perdoei
;-)

"vocês, portugueses, armam-se com o que os vossos antepassados fizeram há 500 anos. Depois disso, não fizeram mais nada, mas continuam todos inchados de importância"