quarta-feira, 22 de julho de 2009

fuga

Numa caligrafia muito tremida e irregular escreveu no topo da folha, “Mãe e pai, se boses batere a mim mais uma vaz eu bou fujir de casa! Ver o dezenho de mim!”.
O desenho de traço inseguro mostra um rapaz de cinco anos com uma cara redonda. A boca é uma linha curva com as extremidades voltadas para baixo. Lágrimas escorrem pelas bochechas de lua. No ombro apoia um pau que segura com uma mão e em cuja outra extremidade desenhou uma circunferência com o dinossauro com que gostava de dormir desenhado no seu interior. Caminha entre árvores e arbustos arrastando na outra mão um saco onde está escrito “muchilas, xapeos, quispos, comida” e mais duas palavras ilegíveis. Para trás fica a casa com uma janela só por onde espreitam a mãe e o pai, observando a fuga do rapaz com indiferença. Para que não houvesse dúvidas quanto à sua identidade, escapa-se da boca um balão onde escreveu “O meu nome é…”
Foi uma escorregadela de mão num momento de ebulição, uma palmada no rabo traquina, uma coisa de nada, pensamos sempre, mas nunca é uma coisa de nada. Sabemos que não o é quando eles exprimem sentimentos nos desenhos que nos metem por baixo da porta do quarto ou deixam em cima da mesa, dentro da pasta do pai. Desaperta-se o nó duma gravata, apetece alargar um sutiã, qualquer coisa onde arranjar espaço para mais ar dentro dos pulmões. Sabemos que cometemos um erro mas nada o acusa tão bem como um desenho tremido num português que se esforçou por escrever. Guardei-o estes anos todos.

2 comentários:

blue disse...

um dia, sem que ninguém me tenha batido, decidi partir. arrumei na pasta da escola pão, peguei num casaco, cruzei o portão e contornei parte do quarteirão. depois, voltei para trás e, mais tarde, quando voltei a sair, nunca mais regressei para ficar.

maria n. disse...

Lembro-me bem disso. Eu sei que um dia os meus também irão e possivelmente não voltarão para ficar, se bem que o mais novo já tenha feito o desenho da casa que vai construir ao lado da nossa, para ele e para a mulher. Num dia fogem, noutro planeiam ficar. Talvez as pequenas fugas sejam um treino para o que virá depois.