Publicidade velhinha do The Guardian.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
recortar os álbuns da duquesa


Que fazer durante as férias de Verão no castelo de Vigoleno, no norte de Itália, em 1933? Recortar os álbuns da duquesa, terá pensado Max Ernst. As 184 colagens de “Une semaine de bonté” criadas a partir de recortes de ilustrações de romances populares, jornais de ciência natural, catálogos de venda, enciclopédias e outras obras da biblioteca da duquesa Maria Ruspoli, estão em exposição no Museu D’Orsay ao lado de ilustrações de onde Max Ernst recortou os elementos que depois misturou e colou. A perfeição das colagens é tão fantástica como os seres resultantes delas.
Impossível não pensar na duquesa. Terá lamentado a mutilação dos seus grossos volumes?

sexta-feira, 24 de julho de 2009


©Srinivas Kuruganti
Prostituição masculina em Hyderabad. As fotografias fazem parte do trabalho de documentação da sida na India realizado pelo autor.
lista
Quando chegou ao último item da lista pôs-se à espera. O papel amarfanhado, escurecido pelo prolongamento na carteira e pelo manusear frequente, fora escrito com a rapidez de uma lista de compras numa caligrafia redonda com as inevitáveis bolas semi-desfeitas sobre os is, as curvaturas dos dês, dos pês e dos bês imitando protuberâncias femininas e os falos curtos e gordos dos efes negando erecções a rabos e mamas de perfil. Pertences do homem que já não vivia ali. Pertences da mulher que já não era. Pertences da mãe octogenária que só parira uma vez. Pertences da casa. Sonhos de fertilidade que não tivera. Brochura da viagem a Itália onde acenara ao homem de roupas barrocas que não lhe devolveu a fé. Cigarros, batom e lenços de papel. Provas de identidade.
Um a um, desfizera-se de quase todos os itens da lista e estava à espera. A mãe apoiava-se nela, braço enfiado no braço. Assistira ao esvaziamento da casa em silêncio, nada dizendo quando os homens da empresa de recolha de pertences os foram carregar num camião branco muito sujo. Habituara-se às pequenas loucuras da filha, velha demais para a contrariar. Seguiu-a como um cordeiro até ao táxi que as deixou junto da linha do comboio. Caminharam um pouco, um último olhar à lista antes de a rasgar em pedacinhos. “Nós”, era o último item. Quando o comboio se aproximou a filha empurrou a mãe para a linha. Atirou-se de seguida na mesma direcção.
O taxista não queria acreditar quando leu a notícia no jornal. Se ele adivinhasse, se soubesse que as conduzia à morte não as teria levado. Os homens pensam que tudo depende deles. Pensam que se matam por eles. Pensam que as salvam.
(pequena estória inspirada nesta notícia)
quarta-feira, 22 de julho de 2009
fuga
Numa caligrafia muito tremida e irregular escreveu no topo da folha, “Mãe e pai, se boses batere a mim mais uma vaz eu bou fujir de casa! Ver o dezenho de mim!”.
O desenho de traço inseguro mostra um rapaz de cinco anos com uma cara redonda. A boca é uma linha curva com as extremidades voltadas para baixo. Lágrimas escorrem pelas bochechas de lua. No ombro apoia um pau que segura com uma mão e em cuja outra extremidade desenhou uma circunferência com o dinossauro com que gostava de dormir desenhado no seu interior. Caminha entre árvores e arbustos arrastando na outra mão um saco onde está escrito “muchilas, xapeos, quispos, comida” e mais duas palavras ilegíveis. Para trás fica a casa com uma janela só por onde espreitam a mãe e o pai, observando a fuga do rapaz com indiferença. Para que não houvesse dúvidas quanto à sua identidade, escapa-se da boca um balão onde escreveu “O meu nome é…”
Foi uma escorregadela de mão num momento de ebulição, uma palmada no rabo traquina, uma coisa de nada, pensamos sempre, mas nunca é uma coisa de nada. Sabemos que não o é quando eles exprimem sentimentos nos desenhos que nos metem por baixo da porta do quarto ou deixam em cima da mesa, dentro da pasta do pai. Desaperta-se o nó duma gravata, apetece alargar um sutiã, qualquer coisa onde arranjar espaço para mais ar dentro dos pulmões. Sabemos que cometemos um erro mas nada o acusa tão bem como um desenho tremido num português que se esforçou por escrever. Guardei-o estes anos todos.
chuva
Gosto da chuva de Verão (já sei, é quase heresia dizer isto em época de praia). O ruído desta manhã aqui para os meus lados, é muito semelhante ao som nos primeiros minutos deste vídeo dos Perpetuum Jazzile.
a antologia do esquecimento
Fazia falta a escrita do Henrique.
vozes
No sótão habita o pó dos objectos supérfluos e mil e uma criaturas que fazem dele o seu habitat. Cumprem o seu ciclo de vida entre as minhas coisas, emigrantes, talvez, de um mundo natural, algumas, outras terão nascido e morrido ali adquirindo nacionalidade por direito de nascença. Encontro cadáveres quando levanto caixas e arrasto móveis, as mãos escuras de pó que num impulso se dirigem para o aspirador e o pé que se queda suspenso sobre o botão de ligar e desligar. Ainda não. Observa. Agora sim. A máquina abre a bocarra estrídula e devora as mil e uma mortes que coabitam o sótão com as mil e uma vidas cujas vozes, eu sei, à noite descerão veios de madeira e cruzarão paredes e tectos, até chegarem ao meu quarto. Aninhar-se-ão por baixo da cama junto das criaturas que se alimentam aspirando as células que se desapertam da minha pele.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
perna de pau

o filhote mais novo desfazendo uma curva
Os meus irmãos faziam carrinhos de rolamentos. Uma tábua que se ia pedir ao carpinteiro, quatro rolamentos que se compravam na loja do senhor Matos e uma corda ligada entre as rodas e a tábua, a servir de direcção, e já estava; um carro que atingia não sei quantos à hora na descida, eram muitos e sem travões. Ao fundo da rua havia uma casa embutida na muralha, habitada por um velho que estava sempre sentado nos degraus que desciam até ao passeio, uma perna flectida e outra sempre estendida. Cabelo no ar agarrada às orelhas do meu irmão, lá íamos nós a toda a velocidade pela rua abaixo em rota de colisão com a perna de pau.
- Ai que já vos esbarrastes - dizia o velho.
- Desculpa.
Um joelho esfolado, um cotovelo raspado, agarrávamos na corda e puxávamos o carrinho de rolamentos pela rua acima, determinados a repetir a corrida, mas desta vez era eu - Geraldo sem Pavor - aos comandos da tábua. E lá íamos nós outra vez, sem remorso, pela muralha abaixo. Toda a gente sabia que as pernas de pau não doíam.
Outubro

«[A Revolução de Outubro]Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo, desejavelmente melhor.»
Gosto de ler o Rui Bebiano mas nunca tive um livro dele nas mãos. Outubro, que pode ser encomendado no site da editora (compras de livros online foi uma das melhores inovações que a internet introduziu na minha vida), já vem a caminho. Parte de uma entrevista com o autor pode ser lida aqui.
via
quarta-feira, 15 de julho de 2009
CEC 2012
A cerimónia de apresentação do projecto "Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 decorreu ontem no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães. Cristina Azevedo, presidente da Fundação Cidade de Guimarães, afirmou que se trata de um projecto para construir e não para comprar.“Não vamos comprar por catálogo, vamos antes criar novos empregos e soltar a criatividade”.
"Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, é de todos os portugueses" e “de todas as cidades portuguesas, esta é aquela de que todos os portugueses se sentem um pouco cidadãos”, disse José Sócrates, mas considerando o destaque quase nulo que a cerimónia teve nos media (com excepção dos jornais locais), a CEC2012 parece ser vista como um projecto de minhotos para minhotos.
terça-feira, 14 de julho de 2009
corpetes e armaduras

corpete de madeira, século XVII
"Corpete de madeira?", pergunta-me um leitor por e-mail, a propósito do que aqui escrevi. Esta fotografia é de Tanya Marcuse, autora do livro Undergarments and Armor com texto da historiadora Valerie Steele, que escreveu The Corset, A Cultural History.
No livro de Tanya Marcuse, o mundo dos homens e o mundo das mulheres é justaposto para nos dar uma perspectiva que vai mais além da percepção inequívoca do corpete como instrumento de opressão, avançada por Valerie Steele no seu livro.


tournure de 1880 e pormenor de uma armadura maximiliana c. 1510
Tanya Marcuse
zé carioca

Rivane Neuenschwander, Zé Carioca no. 4, A Volta de Zé Carioca (1960). Edição Histórica, Ed. Abril
Um livro do Zé Carioca onde as imagens e o texto foram apagados pintando sobre eles as cores do fundo, para imaginar as nossas estórias, personagens e diálogos.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
judenrein
Quando Frank-Walker Steinmeier, ministro dos negócios estrangeiros alemão, ouviu Benjamin Netanyahu comparar a retirada dos colonatos israelitas do West Bank ao Judenrein, baixou a cabeça. Bibi, como é conhecido Natanyahu, já tinha encorajado os membros do seu gabinete a usar esta palavra na defesa dos colonatos judeus. Quando os objectivos esbarram na oposição da comunidade internacional que obriga a um passo atrás, o recurso ao abuso da linguagem e retórica parece uma boa saída. Não chega recuperar da rua a “semelhança” da exigência palestina com a limpeza étnica dos judeus, é preciso obter também concordância do resto do mundo, ainda que por um baixar da cabeça silencioso e envergonhado do representante do país que carrega a culpa do Holocausto. O silêncio estava garantido e Bibi marcou pontos na coligação que lidera. Mas o embaraço e assentimento de Steinmeier não são extensíveis ao resto do mundo que tem uma dificuldade crescente em conciliar a auto-imagem de Israel como uma nação de vítimas, com o poderio militar que usa sobre outro povo. Apropria-se de termos associados ao Holocausto para tentar vender a ideia de um absoluto moral no conflito israelo-palestiniano que defina o bem e o mal, os maus e os bons, onde ele, por força das suas origens e da história, se vê como representante das vítimas, logo, dos bons. Como político “cheio de hubris”, como em tempos o descreveu o diplomata norte-americano Dennis Ross, Bibi sabe que a credibilidade de um disparate está proporcionalmente ligada à frequência com que se o repete. Continuará a usar e a abusar do passado para justificar as suas ideias políticas com um cinismo que desonra a memória das vítimas do Holocausto.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
das árvores e do absurdo
O Irish Times fala do cepo de uma árvore que alguns irlandeses acham muito semelhante à Virgem Maria. Cerca de duas mil pessoas assinaram uma petição exigindo que o cepo não fosse removido do terreno da igreja de uma localidade em Co Limerick, para desconforto do padre que diz que o cepo é uma árvore e não a Virgem Maria. Se um número substancial de crentes se indignar com estas afirmações, o padre poderá ser processado e condenado a pagar uma multa de 25.000 Euros, ao abrigo da famosa e estapafúrdia lei da blasfémia que ninguém pediu mas foi aprovada anteontem na Irlanda. A igreja nunca achou muita piada às iniciativas supersticiosas espontâneas que se materializam fora do seu controle. Acho muito bem que os seguidores do culto do cepo adorem o que lhes apetecer e recusem ir para casa ler a última encíclica papal onde, ao que consta, se revelam verdades sobre a economia das quais nunca ninguém ouviu falar, embora alguns dos que a leram considerem que se trata apenas de senso comum em linguagem teológica. Na Polónia, também há quem diga que uma árvore é só uma árvore e há quem diga que não. A população de Jaslo está dividida entre cortar ou não cortar a árvore que ali foi plantada há sessenta e sete anos para celebrar o aniversário de Hitler. Entretanto, do outro lado do Atlântico, o Michael Jackson resolveu imitar a Virgem Maria irlandesa e aparecer no tronco de uma árvore em Stockton na Califórnia. Suponho que este culto, à semelhança do de Elvis, irá prosperar. Prosperidade é o que se espera para Vila Nova de Gaia, onde se realiza uma feira medieval erótica que, para “atrair o público feminino, pouco comum nas feiras”, tratará de apresentar ao rei “uma mulher adúltera, que será depois enxovalhada e atirada à multidão”. O público feminino, possivelmente com os seios devidamente evidenciados por corpetes de madeira vinda de árvores sem simbolismos marianos ou demoníacos, dará gritinhos de alegria com a sucessão de orgasmos múltiplos que o sacudirá perante tamanha criatividade erótica. Também poderá aprender uma ou duas coisas sobre “acrobacias vaginais” para "apimentar a relação dos casais portugueses" que anda muito desenxabida desde que o alcaide de Gaia se lembrou de apontar a estranha parecença das suecas com o Pacheco Pereira, que até gosta de árvores. Muitas árvores alimentaram a quantidade de revistas e jornais devotados ao culto do Cristiano Ronaldo que, espero, não me apareça em nenhum limoeiro do jardim.
Sento-me na sombra acolhedora de uma árvore e desligo a fonte de alimentação das notícias do absurdo, lembrando-me que as disposições dos tempos são definidas pelas suas mentes mais tacanhas. Abundam besouros nos ramos da tília. Há uma grande quantidade de morangos silvestres que se espalham pelo jardim, determinados a dominar o relvado, e esta noite descobri que os ouriços-cacheiros gostam dos cereais dos gatos. A lagartixa que os meus filhos puseram dentro de uma tina para ser observada, deixou cair a cauda separando-a do corpo. Fazem-no para enganar os predadores, explicam-me eles com ar de biólogos.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
uma forma brilhante de subversão
«Era uma cena interessante porque eu tinha uma enorme multidão ali. Digo-te, é muito, muito estranho estar lá em cima. Sentes-te superior a toda a gente porque estás literalmente acima deles, mas também porque estás cercado pelo exército, tens a melhor roupa, tens o papel principal. E mal as pessoas começam a rir, ficas… é uma forma brilhante de subversão. Penso que é algo de que os revolucionários modernos se deveriam lembrar. Se conseguires gozar alguém, é sempre melhor e mais eficiente do que matá-lo e transformá-lo num mártir. E é isso que funciona tão bem aqui. E foi mesmo muito inquietante interpretar Pilatos para aquela gente toda, para no fim os ver rebolar, um grande número de gente que se ri de ti. Não há nada mais garantido para te pôr no teu lugar e não há nada que possas fazer contra isso. Suponho que possas matar gente por se rir de ti, mas…» - Michael Palin sobre a famosa cena de Pilatos (welease wodger) no Life of Brian
terça-feira, 7 de julho de 2009
sopa
Algumas ideias criativas dos anos 50 parecem ter sido idealizadas para demover o consumo de sopas Campbell. Nessa altura eu ainda não era nascida mas na década seguinte, sem nunca ter ouvido falar de sopas enlatadas, também tentava "melhorar" as sopas da minha mãe. Uma das minhas melhores ideias foi adicionar-lhe açúcar. Lógica imbatível, se tudo o que tinha açúcar era bom, a sopa só podia ser má porque não o tinha. Não tentei a esperteza segunda vez.

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segunda-feira, 6 de julho de 2009
identidade

mulheres da limpeza, da série Comerciantes de Irving Penn
Quando pela primeira vez pus os pés fora de Portugal recebi a minha primeira lição de identidade. Lá fora não era com artistas, exploradores e poetas, que nos identificavam. Não era com a veia que nos levou a dar mundos ao mundo. Era com as mulheres da limpeza.
domingo, 5 de julho de 2009
aborígene
Se eu fosse uma aborígene não conheceria as palavras esquerda, direita, frente e atrás e referir-me-ia à minha mão esquerda ou à minha perna direita usando os pontos cardeais. Mas o meu pé sudoeste ou a minha mão oeste mudariam de nome se eu mudasse de posição. Uma aborígene tem de estar sempre orientada, sabe essas coisas intuitivamente, enquanto eu nem sempre distingo a mão direita do meu pé esquerdo. Qualquer coisa se perde na viagem do cérebro até à mão que escreve.


