terça-feira, 16 de junho de 2009

máquina do tempo


Conduzia daquela forma que os condutores não sabem explicar. Subitamente parecemos despertar de um coma; chegamos a um sítio sem memória de como fomos lá parar. Tentamos recordar o caminho, os sinais familiares, esta ou aquela casa, uma ou outra árvore, uma curva ou cruzamento – o cruzamento! Devo ter feito atenção à direita e à esquerda antes de prosseguir mas não me lembro – os semáforos teriam mudado de cor? Devorámos a estrada como autómatos, sem nada reter, e milagrosamente chegamos ao sítio certo sem uma beliscadura.

Há um lapso entre o início da viagem e o fim. Quando a minha mãe caiu nas escadas, desapareceu nas frinchas do soalho. Deixou ficar um corpo inerte entre dois lanços, um intumescimento na nuca e frases sem sentido. O autómato. No Hospital de S. Marcos, quando não repousava, falava. Saíam-lhe coisas estranhas, como um dedo que se esticava e apontava para os pés da cama, para um cão invisível que devorava um pão-de-ló ausente. Olhava-nos sem nos reconhecer e falava connosco sobre nós como se não fossemos nós. Dizia-me, «Não digas à Maria que te dei o linho antigo da avó», como se eu não fosse a Maria e uma parte desse linho, bordado pela minha irmã, não estivesse encaixilhado e pendurado nas paredes da minha casa. Era assim; uma estranheza. O meu pai segurava-lhe os pulsos distribuindo palmadinhas pelas costas das mãos, entabulando com ela uma conversa de dicionários, de onde saltavam palavras com definição e classificação mas sem correlação, dizendo o nome da minha mãe a cada duas palavras.

Estava a tentar trazê-la de volta; mas a minha mãe só voltou no dia em que regressou a casa. Não se lembrava como tinha chegado à sua cama - se ainda segundos antes subia as escadas – e olhava incrédula para a minha irmã - se ainda há minutos estava em África. Precisou de algum tempo para aceitar que tinham passado três meses. Vasculhou na memória tentando desfazer o hiato, mas não encontrou mais do que uma ténue impressão de ter estado presa pelos pulsos e pelos tornozelos a uma roda que girava sem parar.

Posso acordar no portão da quinta sem me lembrar de nada entre a saída do parque de estacionamento do supermercado e a chegada a casa. Por onde teria andado? Poderia ter passado por Barcelona ou por Nouméa, ter participado num qualquer ritual ancestral entre povos por descobrir, ter desfilado com fitas verdes enroladas nos pulsos pelas ruas de Teerão, ou percorrido a Via Láctea, de uma ponta à outra, sem reter uma única pista para um registo, o reconto dessa odisseia galáctica num diário. Poderia, como a minha mãe, ter sido uma mulher vitruviana à deriva num hiato.

O veículo que me transporta é uma máquina do tempo. Entrei nele há vinte anos, mas abre-se o porta-bagagens e os congelados que comprei ainda estão congelados, a alface não murchou, a fruta não apodreceu.